Conversamos por algumas horas e o tempo não parecia estar constrangido pelo relógio. O tempo libertou-se das comportas do espaço e estendeu seus ponteiros para além da estabelecida marca de segundos e minutos. Foi uma eternidade cifrada em momentos únicos. Assim são os encontros transparentes com pessoas transparentes.
Demorei alguns anos, a custa de muitos enganos, a perceber a enorme distância que existe entre o transparente e o opaco. Errei bastante ao buscar o translúcido nos seres humanos com quem cruzei durante o meu percurso. Era, para mim, suficientemente claro, que ser transparente estava diretamente ligado ao fato de estar viva. Porém fui descobrindo, aos poucos, o contrário. A maioria das pessoas sobrevive no opaco. As reticências são mais usuais do que o ponto de exclamação.
A realidade é visível e vem à luz de uma maneira ou de outra. Por que, então, escondê-la por detrás de um véu?

