28 abril 2010

A MELHOR FATIA DO BOLO

Conversamos por algumas horas e o tempo não parecia estar constrangido pelo relógio. O tempo libertou-se das comportas do espaço e estendeu seus ponteiros para além da estabelecida marca de segundos e minutos. Foi uma eternidade cifrada em momentos únicos. Assim são os encontros transparentes com pessoas transparentes.
Demorei alguns anos, a custa de muitos enganos, a perceber a enorme distância que existe entre o transparente e o opaco. Errei bastante ao buscar o translúcido nos seres humanos com quem cruzei durante o meu percurso. Era, para mim, suficientemente claro, que ser transparente estava diretamente ligado ao fato de estar viva. Porém fui descobrindo, aos poucos, o contrário. A maioria das pessoas sobrevive no opaco. As reticências são mais usuais do que o ponto de exclamação.
A realidade é visível e vem à luz de uma maneira ou de outra. Por que, então, escondê-la por detrás de um véu?

20 abril 2010

Um homem, uma mulher


Dizem que a poesia é a prima pobre da literatura. Discordo. Poesia é um jeito de olhar, de falar, de ver a vida através de lentes especiais. Ricamente vestida com adornos só visíveis ao tato das almas, a poesia surge onde menos é esperada.
Escrever poesia é simples como beber um copo de água, naturalmente. Só questão de sensibilidade e prática. Todos somos poetas em essência. Basta possuir uma percepção afiada pela constância de viver e o poeta está pronto para redigir. A gente pensa poesia, porém nunca escreve o que pensa. Poesia não é privilégio de autores famosos. Escrever poesia é soletrar sentimentos numa cadência melódica que escorre pelos dedos da alma.
Ler poesia é um tanto diverso. É como viajar num barco alheio em rotas traçadas por especialistas em emoções. Muito agradável e cômodo porque alarga horizontes e propicia novas sensações sem que se faça esforço algum a não ser o de se deixar levar ao prazer do vento, guiado por outrem.

12 abril 2010

DISCUTINDO A RELAÇÃO

Simples frases ditas como que quase num sussurro, em forma de desabafo, são sinalizações vestidas com disfarces e, geralmente, passam ao largo da nossa compreensão. Algum tempo depois, elas sobem à tona dos nossos pensamentos como bolhas de ar, querendo explodir na atmosfera do real e concreto.
Entre um gemido e um suspiro expressamos as nossas mais urgentes necessidades. E quando me refiro a necessidades, quero dizer secretas vontades, urgentes desejos. De alma, vejam bem! Não se trata de coisas, de objetos. Podemos até querer muito comprar um carro, viajar para as Ilhas Gregas, adquirir um imóvel, publicar um livro, freqüentar um “SPA” mensalmente. Nada disso é tão significativo quanto aquela aspiração íntima que guardamos no mais secreto cofre. A vontade de verbalizar, de falar em voz alta, de expor o que sentimos.

08 abril 2010

DE VOLTA PARA CASA


“A vida é uma viagem de volta para casa”. Ouvi essa frase em um filme alguns dias atrás e fiquei assimilando cada palavra como quem organiza um arquivo, lenta e cuidadosamente.
Sem a mínima pretensão de unir os pensamentos aos gestos, coincidentemente, nos dias que se seguiram, dei início ao trabalho de confeccionar a árvore genealógica da família, motivada pela descoberta de algumas fotografias antigas e certidões amarelecidas em papéis fragilizados pela ação do tempo com dados esclarecedores sobre as origens dos meus ramos familiares.

03 abril 2010

GENTE QUE FICA, GENTE QUE PASSA

Com a ajuda inestimável da infinita capacidade de memória do computador interno do cérebro, é possível acionar dados registrados de forma aleatória e não, obrigatoriamente, sucessiva.
Até onde se alcança a lembrança dos fatos da existência, desde as primeiras impressões até as atuais, basta situar uma época específica, que, num passe de mágica, personagens dos mais variados aparecem. E é bem simples compreender tais aparições. Pessoas que cruzaram trajetos comuns e ficaram inseridas no enredo de que se é protagonista.