21 agosto 2011

REMINISCÊNCIAS


Eu não deveria sentir saudade de uma época em que não vivi, mas sinto. Tenho a clara percepção de que alguma reminiscência desperta em mim em determinados lugares, em calçadas de mosaicos por onde caminha em devaneios a minha imaginação.



Seria presunçoso dizer tratar-se de um fenômeno extra-sensorial. Ao contrário, diria eu ser o uso em abundância de todos os sentidos bem palpáveis como se houvesse uma intimidade desinibida entre o que não vivi e o que pressinto.


Essas casas imponentes com longilineas paredes, que me rodeiam, contam histórias que ouço atentamente. Elas debruçam personagens, em suas janelas transparentes, que me espiam displicentes. Alguns surgem nas sacadas adornadas com arabescos de ferro e acenam com a cabeça num meneio suave e distinto.


Às vezes, me convidam para um sarau. Então, me desfaço em palavras, declamando prosa e verso no ritmo envolvente da valsa tocada no piano de cauda de onde brilha a única iluminação presente num candelabro pousado sobre um drapeado de veludo. A poesia corre solta como menina descalça em tardes de sol. A música ecoa por todos os cantos da alma. A luz das velas tênue desenha silhuetas discretas que me assistem em profundo silêncio, saboreando doçuras e sorvendo licores servidos em bandejas rebuscadas. Na placidez do instante, repouso como se todo o cenário me pertencesse.



É tudo tão familiar que me vejo andando por corredores com inúmeras portas com belos alambrados feitos por mãos exímias em madeira nobre. Meus olhos curiosos vagueiam pelo entorno dos imensos salões, perambulando entre o mobiliário ornado de pratarias e cristais requintados.


Um imponente relógio se ergue de encontro à parede no fundo de um corredor e seu pêndulo me diz que sim, me diz que não. E eu me posto frente a ele, misturando seu mecanismo preciso com meu desejo de desvendar mistérios. Imagino, assim, as dores, os segredos, os soluços, os risos e amores que conviveram com seus ponteiros, assinalando as horas, marcando o tempo, que é o grande senhor da vida. O relógio me encara e nada responde. Só seu tique taque ressoa como resposta alguma. Nada me diz. Continua a trajetória dos minutos completamente alheio a minha presença. E eu me rendo a sua soberania.


Retorno ao salão principal. Despeço-me dos presentes com um sorriso compreensivo. Coloco as luvas, o casaco e saio à rua, sem antes voltar à cabeça para uma espiadela a favor da memória fotográfica, que guardo a sete chaves, num esconderijo que só a mim diz respeito.


Sabe-se lá quando serei convidada para outro sarau! Toda a oportunidade é pouca.


Resgato, nessas andanças, uma época que não deveria ser esquecida. Reavivo um período que faz parte da história da cidade que é nobre, fazendo justiça ao título de Princesa que lhe foi conferido.


Por razões que a própria razão desconhece, sinto-me em casa quando meus pensamentos adentram pelo casario antigo que enfeita as ruas de Pelotas.


Preservar o passado nada mais é do que valorizar o presente e respeitar o futuro!








14 agosto 2011

MEU PAI


Ele sabia, antes do meu nascimento, que eu seria uma menina. Escolheu meu nome e o escreveu numa dedicatória de livro para a minha mãe. Imaginava exatamente como eu seria: lourinha com olhos verdes. E acertou.

Esse texto vai ser escrito entre lágrimas, interrompido pela emoção de lembranças e sorrisos, de orgulho, de júbilo, de exercício de despir a pele da alma para retratar a figura de um homem especial.

Tive o privilégio de ser filha de um grande homem, malgrado sua estatura física ser mediana. O incomum era o tamanho da alma que aquele corpo conduzia. Afora isso seu rosto era dotado de uma beleza indiscutível. Daquelas que chegam a incomodar por chamarem tanto a atenção na rua, na chuva, no meio do nada, no centro de tudo.

07 agosto 2011

HOSPEDAGEM


A maior rede hoteleira que existe é a da alma inserida em todo o ser humano, mesmo naqueles que se dizem eremitas e tentam evitar todo e qualquer acesso a suas acomodações interiores.

A alma é um grande hotel. Pouco importa a categoria em que se insere: resort, pousada, fazenda, histórico, apart-hotel ou cama e café, A hospitalidade é sua marca registrada. Está sempre de portas abertas e tem espaço vago a oferecer a qualquer hora do dia ou da noite. Presta serviços de primeira qualidade, abriga forasteiros, provê necessidades básicas e oferta amenidades e acomodações conforme as exigências dos que a procuram. Antes de qualquer coisa, recepciona de braços abertos a quem quiser se alojar. E é no modo de receber que se avalia a dimensão da alma-hotel.

O QUE FAZER?

Dúvidas, se não as temos, como levar o dia adiante, esbarrando em escolhas das mais simples as mais complexas? As previsíveis situações de rotina exigem pouco de nós no que tange a decisões. Estão de cara com a cara da gente e só vamos cumprindo com os afazeres da agenda.


Por outro lado, as circunstâncias de foro íntimo ficam alfinetando nossos pensamentos numa urgência incrível para serem atendidas.

Ele não ligou. Deves ficar em silêncio ou telefonar, mandar uma mensagem pelo celular assim como quem não quer nada, querendo?