28 setembro 2011

REMINISCÊNCIAS

Eu não deveria sentir saudade de uma época em que não vivi, mas sinto. Tenho a clara percepção de que alguma reminiscência desperta em mim em determinados lugares, em calçadas de mosaicos por onde caminha em devaneios a minha imaginação.


Seria presunçoso dizer tratar-se de um fenômeno extra-sensorial. Ao contrário, diria eu ser o uso em abundância de todos os sentidos bem palpáveis como se houvesse uma intimidade desinibida entre o que não vivi e o que pressinto.

Essas casas imponentes com longilineas paredes, que me rodeiam, contam histórias que ouço atentamente. Elas debruçam personagens, em suas janelas transparentes, que me espiam displicentes. Alguns surgem nas sacadas adornadas com arabescos de ferro e acenam com a cabeça num meneio suave e distinto.

sEGUNDA PELE

Chegando a Primavera e algumas peças de vestuário começam a ser substituídas. A primeira delas é a tal “segunda pele”. Aquela camiseta que tem a função básica de acalentar a pele com sua malha fina para proteger do frio.


Lá fora, os dias estão mais longos, o sol descansa arredio no horizonte numa lentidão de gato que se espreguiça. As plantas trocam suas folhas antigas por outras de um verde pleno de seiva. Os pássaros fazem revoadas, preparando a festa para a estação mais bonita do ano. Tudo conspira e se inspira num ritual de troca, de véspera, de esperança renovada.

Até as chuvas na Primavera caem com mais graça, como se a dança coreografada pelo vento fosse leve e rápida ao som de um prelúdio de Chopin.

Quisera eu contestar as mudanças e até, negá-las se possível. Porém, me rendo ao inevitável redemoinho que acontece por fora e por dentro da alma.

27 setembro 2011

MANIA

Virou mania. Selecionar, copiar, colar, salvar, apagar. Palavras, imagens. É só pressionar as teclas certas e, pronto! Fica tudo arquivado no disco rígido da memória da ferramenta mais utilizada pela civilização atualmente. E, quando há o arrependimento de “salvar”, se apaga.

Penso que a concorrência com o telefone celular é parelha. Mas no que me diz respeito, uso muito mais o computador.

Voltando ao que interessa; impossível deixar de lado as facilidades advindas do progresso com esses instrumentais que tornam o cotidiano mais fluído e rápido. A questão é não contestar os meios, mas questionar os fins, apesar disso.

E lá vou eu de novo armando mil e uma conjeturas sobre a geração de agora. A geração do “copia” e “cola”. Constatação isenta de crítica. Constatação pura e simples.

De repente, não mais que de repente, pode ocorrer a mesma situação com as emoções, os sentimentos. Copiar alegria, colar saudade. Salvar desencanto, apagar tristeza. E por aí seguem meus pensamentos, enveredando pelos labirintos dessas almas jovens e criativas.

Por exemplo, quando o tema é amor, fica muito mais interessante tal procedimento. Meus caros leitores, os amores são, há amores vãos e amores vão. Afetos somem no arquivo de invisíveis. Assim pensa a maioria dos mortais. Só para os poetas e filósofos a ótica é bem diversa. E sem sombra de dúvida, asseguro que a memória é capaz de realizar milagres.

04 setembro 2011

COLCHA DE RETALHOS


Queria ser proprietária de uma máquina de tecer fios especiais. Esses fios invisíveis, arredios, teimosos, poderosos, que entrelaçam toda e qualquer atividade do cotidiano. Fios que ficam suspensos no ar, displicentemente, voando longe do nosso alcance. Fios, entretanto, que dependem uns dos outros (e nos tornam subalternos, por via de consequência) numa sequência que, nem sempre, é o que deveria ser.



E nessa inquietude, que a ausência de sincronia causa, ficamos equilibrando atividades numa espera angustiante de que os tais fios se cruzem, se unam, se entrelacem e façam com que a roda gire a nosso favor.


Alguns fios não se subordinam a outros por puro descaso, por atraso, por imprudência, negligência, imperícia e interrompem sumariamente o costurar dos fatos. Inoportuno domínio que causa uma sujeição incômoda a quase tudo que se quer ver realizado.