21 dezembro 2008

RESPOSTA AO TEMPO!


Domingo ensolarado. Nada melhor do que, depois de uma caminhada, voltar para casa e ouvir música. Entre muitos, escolho Nana Caymmi e sua excelente interpretação. Distraída, sem prestar muita atenção ao repertório, continuei minhas tarefas ao som do ritmo. Mas, de repente, parei com tudo e como se a minha imagem ficasse congelada numa tela de televisão, a canção penetrou alma adentro e colocou suas mãos em volta de mim na carícia que a arte costuma dar a nós, pobres mortais.
Em absoluta reverência, apertei o botão do som para ouvir desde o início.
“Batidas na porta da frente. É o tempo. Eu bebo um pouquinho pra ter argumento. Mas fico sem jeito, calado. Ele ri. Ele zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei. Num dia azul de verão, sinto o vento. Há folhas no meu coração. É o tempo. Recordo o amor que perdi. Ele ri. Diz que somos iguais, se eu notei, pois não sabe ficar e eu também não sei. E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos, que amores terminam no escuro, sozinhos. Respondo que ele aprisiona, eu liberto. Que ele adormece as paixões, eu desperto. E o tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver. No fundo, é uma eterna criança que não soube amadurecer. Eu posso e ele não vai poder me esquecer.” (Cristovão bastos e Aldir Blanc)
E já que o ano está em vias de sair pela porta da frente, melhor agilizar a despedida, sem antes deixar registrada sua trajetória.
De uma forma bastante agitada, a passagem de 2008 nos meus dias (ou foram dele?) foi rápida e nem sei bem onde ficaram muitos dos acontecimentos. Os bons momentos que me proporcionou foram preciosos, sem dúvida. Minha descendência se prolonga em alegrias e bem-aventuranças. Exerci a entrega em gestos, palavras e emoções. Recebi bênçãos e estendi meus braços para acalentar a vida.
Mágoas não guardo da companhia desses 366 dias pois, passaram vorazes e deixaram marcas suaves em minhas lembranças. Muito trabalho e trabalho. Nada de muito trágico aconteceu. As perdas foram sentidas dolorosamente na prática de aceitação. Para isso fomos feitos, também. Despedida dói e chorá-las é catalisar as feridas. No fio suspenso das expectativas ficaram as angústias balançando.
Afora isso, no tempo em que 2008 esteve comigo, foi testemunha de conquistas e aquisições de há muito esperadas. Comemo, pois!
Foi um ano bom, malgrado os tropeços e a falta de tempo, que não permitiu mais atenção aos que me são queridos. Fez, como um amante egoísta e ciumento, com que, muitas vezes, eu me tornasse omissa em situações que exigiam a minha presença e companhia. De qualquer forma, agradeço cada dia que partilhou comigo, a sós. Enriqueceu meu calendário de vida com mais um pacote de 12 meses. Valeu!
“E se o tempo sabe passar e eu não sei, eu posso e ele não vai poder me esquecer.” Que o amor que perdi me encontre em algum outro tempo, num lugar diverso, com novo figurino, de cara nova e limpa, sem máscaras, sem medo, sem reticências.
Pois, sempre damos uma resposta ao tempo que bate na porta da frente.
Que a nossa resposta a 2009 seja coerente, mesmo que nos faltem palavras e nos sobrem pensamentos.
A vida corre como um rio de amplas margens. Que saibamos aproveitar a paisagem e sejamos capazes de libertar sonhos e despertar paixões, mesmo que o tempo tente aprisionar ou adormecer nossas tentativas de reviver.

4 comentários:

Bea disse...

Oi
Após algum tempo sem vir te visitar, fiquei contente de ler teu livro on line. Quantas reflexões,algumas mais tristes outras não. Mas tudo refletindo a alma poética que possues.Este teu post também revela a emoção que colabora em teus textos.Almejo que em 2009 continues escrevendo e nos presenteando com teus belos textos. Sempre se consegue imaginar e por que não dizer refletir tbm como algo que possa estar acontecendo na nossa vida. Obrigada poetisa por tantas mensagens.
Um abraço
Bea

Maria disse...

Este tempo cheio de dobras, não nos perde, apenas troca as gavetas, e quando menos esperamos elas se abrem. Algumas mantem o perfume, outras nunca tiveram.
E percebemos então que nada se perdeu.
Beijos

Clarisse disse...

Maria Alice querida,
Senti-me maravilhada com tuas palavras e me removi a esse tempo que em alguns momentos fiz parte. Que continues sempre iluminada para nos trazer palavras tão significativas. Um beijo
Clarisse Avila

Lú Albuquerque disse...

Oi, Querida!
Indiquei teu blog para receber o selo do prêmio Dardos (confraternização e reconhecimento entre blogueiros).
É uma forma de homenagear não somente o teu blog, mas todo o teu trabalho na internet!

Para colocar o selo no teu blog é só seguir as instruções que estão lá no www.lu-albuquerque.blogspot.com.

Abração!