domingo, 25 de outubro de 2009

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ

“São dois pra lá, dois pra cá”, como canta Elis Regina num famoso bolero. Sincronia é imprescindível.
E a vida amorosa se parece muito a um bolero. Desses que se dança de rosto colado, num abraço de coração que bate junto a outro coração.
Dois pra lá, dois pra cá.
A essa altura, me assalta a constatação de que isso tudo é história de uma geração passada. Raros jovens sabem dançar bolero, mas, surpreendentemente, conhecem muito bem as peripécias dos labirintos do amor. Então, o bolero é apenas um detalhe. Que dancem, pois, como queiram.
Gosto de dançar bolero, tipo: “a tua mão nos pescoço, as tuas costas macias”, talvez, por ser uma romântica incurável. Aliás, disso não me quero curada.
Se gostar de receber rosas com cartão apaixonado é romantismo, sou um caso perdido.
Se apreciar o sol se por no horizonte com olhos cheios de emoção e desejar partilhar essa sensação com quem amo, estou na lista dos românticos assumidos.
Se acreditar que a alma gêmea é um pedaço de mim, que se extraviou por aí e, mais dia, menos dia, vai bater na minha porta, sou irremediavelmente romântica.
Se a carícia indizível tocou na alma e deixou vestígios inesquecíveis, se a folha seca, ainda, está guardada entre as páginas de um livro, se a fotografia continua na gaveta em constante repouso e, vez ou outra, a perturbo com meu olhar amoroso, se o teu jeito se acomodava com o meu numa cumplicidade única e, lembro disso a todo instante, pertenço, sem dúvidas, ao rol dos românticos convictos.
“São dois pra lá, dois pra cá”. Muito melhor do que um para cada lado, quando o afeto acaba em descompasso.
E aí, sim, entram em cena todas as gerações. Com bolero ou sem bolero, o romantismo não merece ser deixado à margem, à deriva.
Na tua dança de amor, o ritmo tem que existir, seja ele “Hip Hop”, dança, livre, samba ou bolero.
Amor é ritmo, é maré cheia e maré vazante, é oceano, beijando a areia em ondas que vêm e vão.
“Jogamos nosso bolero/ na ronda dos oceanos/ A vida vem como em ondas,/ dizia nosso poeta./ Nossa canção incompleta/ pode esperar vinte anos./ O amor faz ondas redondas/ até quebrar como eu quero.” (Chico Buarque)
Dois pra lá, dois pra cá, até que o romantismo desapareça, o amor acabe, a cadência se perca e fique esquecida na posta restante da vida.
Por ora, permaneço adepta ao bolero que me enlaça e me faz rodar ao som da melodia, sussurrando ao meu ouvido: “são dois pra lá, dois pra cá.”

terça-feira, 20 de outubro de 2009

SER CRIANÇA

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

PRESENÇA

Aos poucos, a percepção inconsciente foi me ensinando sobre assuntos que não são, aparentemente, relevantes, porém fazem toda a diferença quando se precisa exercitar o ato de viver em situações para as quais inexiste manual de procedimento e nem receita em sites de busca na Internet ou fora dela.
O significado de presença, por exemplo, consegue extrapolar da definição do dicionário e foge acelerado, desde que se queira explicar o seu sentido na realidade do dia a dia.
Presença é aquela companhia invisível que nos fazem os pensamentos quando alçam vôo e escapam ao nosso controle, viajando por onde querem, visitando lugares, abraçando pessoas.
Existe em cada um de nós um recanto, um cofre onde armazenamos tesouros de vivências de ontem e de hoje, também. Tesouros que vencem espaço e tempo porque podem ser vistos, tocados e sentidos.
Aprendi que, na minha mania de fotografar momentos especiais, as imagens que estão nos porta retratos realçam presenças inesquecíveis.
Presença não é antônimo de ausência. Presença é o contrário de vazio.
Pois foi, exatamente, esse ponto de vista que me ajudou a compreender meu sentimento de paz ao organizar as memórias encontradas em manuscritos. Ao ficar órfã, meses atrás, tive que encarar a tarefa de mexer em guardados. Descobri cartas, fotos, documentos. Arquivos de vida dos meus antepassados, de mim mesma, dos meus descendentes. Uma aventura fascinante plena de fortes emoções. Laços de sangue, de risos e de lágrimas. Amores incondicionais.
Daí, o pensamento envereda por outros rumos e fica no ar a pergunta: - E no que se refere ao que está fora desse círculo? Como se lida com a falta da presença do amor condicional? Daquele amor humano que exige troca, recompensa, parceria?
Confesso que silenciei. Parei estagnada sem saber como explicar o que penso a respeito.
Com a prática de associar idéias e puxar pela memória foram chegando, naturalmente, as palavras cantadas pela Adriana Calcanhoto: “Ainda tem o seu perfume pela casa./ Ainda tem você na sala/ Por que meu coração dispara/ Quando tem o seu cheiro dentro de um livro/ Dentro da noite veloz.”
Fechou com tudo. Essa é a desfaçatez do significado da presença. Presença que fica apesar e além da ausência, vencendo desejos, sobrepondo-se a desencontros, suprindo vácuos, dando sentido ao amor que por si só, se basta. Ele existe e, pronto!
E, então, entrou na sala em meio ao alvoroço da minha garimpagem, o Senhor Poeta Fernando Pessoa, dizendo taxativamente: “Penso em ti e dentro de mim estou completo. O amor é uma companhia”.
Fiquei sem fôlego ao mergulhar de cabeça na profundidade de cada frase. Eu não poderia dizer mais e melhor.
Presença é o que se busca na desculpa de se ter companhia porque a ausência nos angustia. O pânico de ficar só anula o raciocínio coerente e nos impede de ver o que a realidade nos fala.
A presença de quem amamos está sempre ao nosso lado. E para arrematar, continua Pessoa a soprar nos meus ouvidos: “Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.”

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dançando

domingo, 27 de setembro de 2009

Quero amanhecer amando - Tânia Alves

domingo, 13 de setembro de 2009

RELEITURA

Um tanto ansiosa e bastante surpresa, a página vazia me olha de soslaio, querendo antever o assunto que abordarei. Ambas estamos posicionadas naquele exato momento em que o alvoroço dos pensamentos esbarra numa algazarra ruidosa.
Dentre as tarefas amenas do fim de semana, reli antigos rascunhos, guardados numa gaveta. Dessas que a gente abre no meio da tarde de um domingo, despretenciosamente. Encontrei uma página amarelecida com palavras redigidas nalgum tempo que nem sei. Mexer em guardados é, de certa forma, um entretenimento. É como assistir novamente a um filme de que esquecemos, mas que traz cenas onde fomos os protagonistas. :
Passei a limpo, sem correções, o parágrafo que partilho contigo, aqui e agora:
“Parece que tudo vai começar a entrar nos eixos, terei um espaço conquistado a duras penas, onde minha vida se encaixará nas necessidades básicas e principais”.
Indago a mim mesma sobre a razão dessas linhas. Confirmo, no entanto, que é assunto de suma importância. Readquirir o referencial, o rumo, o ponto de ignição. Retomar o prumo, o leme. Içar velas e navegar por águas desconhecidas, nem sempre cristalinas, mas desde há muito desejadas.
A corredeira dos dias vai levando de roldão a beirada dos instantes bons que posso ter, mas não arranca o pedaço de terra forte e firme onde estão plantados os afetos maiores. E. por eles, a vida se enraíza para dar frutos na fertilidade do criar. Devolvem-me o prazer de construir excelentes lembranças no passar rápido do cotidiano para crescer e, assim, atingir a estatura da maturidade de caminhar pelos próprios pés.
De resto, ficarei, na melhor das hipóteses, adequada ao novo com a serenidade ¬de ter encontrado a paz, agradecendo o momento valioso, na perspectiva de que retorne como a curva do rio que se viu na infância e se busca pela vida afora.
Todas as coisas têm seu lugar, todas as pessoas têm seu espaço, todas as procuras têm seu fim quando o sentido de existir se justifica pelas alegrias inesperadas.
Se hoje eu escrevesse pelo momento atual, modificaria quase nada. No espaço entre o ontem e o agora, escrevi outras páginas. Bonitas, algumas delas. Outras, extremamente tristes e amargas. Aprendizado indispensável para valorizar o presente.
A minha verdade se traduz em gestos e palavras com a coerência de ter chegado, sempre pronta para partir. E continuo a ser o que sempre fui: construtora da história da minha vida.
No efêmero de tudo, sou permanente. Não ouço por meias palavras, não sinto pela metade. Sou inteira. Não me fraciono, Estendo-me por sobre o tempo e me dilato no espaço. Destemida guerreira de uma batalha constante, em que defendo a transparência, na coragem de ser emoção e ternura, na medida do que o coração humano é capaz.
Reler páginas escritas em outras épocas é como rever fotos de outrora e visitar de novo a sala de montagem do meu eu, único e peculiar, numa repetição da história do boneco de madeira que adquiriu¬ nervos, músculos, ossos e passou a ter vida.
Precisei conhecer o lado espesso das dores e desencantos para me preparar para o encontro com a luz da alegria da recompensa.
A releitura de mim mesma descortina um “déjá vu” interessante. Extremamente interessante. Deve acontecer o mesmo contigo.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Penso numa Alice descobrindo o seu país. Uma Alice brasileira, nascida em terras férteis de amplos horizontes. Alice, crescendo de tamanho quanto mais o tempo passa para acompanhar o desenvolvimento do país das maravilhas: o Brasil, “gigante pela própria natureza.”
Alice criança, correndo atrás do relógio que marca o tempo certo. O tempo do futuro.
Alice que é cheia de calor humano herdado da confraria imensa que é a gente da terra da boa colheita.
Alice hospitaleira que recebe, em seu lar, todos os povos, pois ela própria é descendente de várias raças.
Imagino uma Alice "feita em casa", respeitando o escritor que criou uma outra Alice em livros memoráveis que imortalizaram a personagem Alice.
É com uma Alice cheia de graça e de garra que eu sonho. É a Alice que vence barreiras, fronteiras e viaja pelo contorno do seu país; mensageira da paz, do congraçamento, de bandeira verde-amarela na mão. Alice que, apesar dos pesares, acredita que o futuro é hoje e a crise mundial poupa os limites da terra amada idolatrada. Alice que tem fé na supremacia da honestidade sobre a corrupção.
É uma figura com a cor do Brasil. Uma Alice que chora, que ri e brinca de roda. Alice que dorme com um ursinho de pelúcia abraçado ao coração e acorda com o brilho do sol. Alice que se cansa e se refaz, que é ferida e cicatriza.
Essa Alice é fruto das maravilhas de sua pátria. Alice do contra-senso, do contraditório. Alice de nariz escorrendo, de pés descalços, de roupas remendadas, que só pisa em calçadas e nunca ouviu falar de cultura. Alice de banho tomado, perfumada, caminhando sobre tapetes, navegando na Internet e no espaço do conhecimento. Alice de altos e baixos, de favelas e palacetes. Alice suburbana e cosmopolita.
Alice filha de um gigante, herdeira, entre milhões, de um império e, também, dos resquícios de uma massa falida.
Alice simples, que se emociona quando canta o hino de sua terra porque procura, em cada frase, a justificativa por amar tanto esse pedaço de chão: rico e miserável, poderoso e frágil, feliz e triste.
Acontece que, essa Alice, é uma Alice comum e faz da brasilidade um canto em uníssono com o povo que assiste desfiles de carnaval na Sapucaí e vibra com jogo de futebol em qualquer gramado.
Porém, não se deixa enganar com disfarces de purpurina, nem com estratégias para desviar sua atenção.
Alice pesquisa, interroga, separa o joio do trigo e forma opinião na liberdade conquistada a duras penas numa “livre terra de livres irmãos”.
A Alice que idealizo é fiel representante de uma raça de bravos e fortes e vive, com muito orgulho, num país do tamanho de um continente, situado no hemisfério Sul do planeta Terra, ás margens do Oceano Atlântico, iluminado pela Via Láctea sob a constelação do Cruzeiro do Sul.
País das Maravilhas!