13 setembro 2009

RELEITURA

Um tanto ansiosa e bastante surpresa, a página vazia me olha de soslaio, querendo antever o assunto que abordarei. Ambas estamos posicionadas naquele exato momento em que o alvoroço dos pensamentos esbarra numa algazarra ruidosa.
Dentre as tarefas amenas do fim de semana, reli antigos rascunhos, guardados numa gaveta. Dessas que a gente abre no meio da tarde de um domingo, despretenciosamente. Encontrei uma página amarelecida com palavras redigidas nalgum tempo que nem sei. Mexer em guardados é, de certa forma, um entretenimento. É como assistir novamente a um filme de que esquecemos, mas que traz cenas onde fomos os protagonistas. :
Passei a limpo, sem correções, o parágrafo que partilho contigo, aqui e agora:
“Parece que tudo vai começar a entrar nos eixos, terei um espaço conquistado a duras penas, onde minha vida se encaixará nas necessidades básicas e principais”.
Indago a mim mesma sobre a razão dessas linhas. Confirmo, no entanto, que é assunto de suma importância. Readquirir o referencial, o rumo, o ponto de ignição. Retomar o prumo, o leme. Içar velas e navegar por águas desconhecidas, nem sempre cristalinas, mas desde há muito desejadas.
A corredeira dos dias vai levando de roldão a beirada dos instantes bons que posso ter, mas não arranca o pedaço de terra forte e firme onde estão plantados os afetos maiores. E. por eles, a vida se enraíza para dar frutos na fertilidade do criar. Devolvem-me o prazer de construir excelentes lembranças no passar rápido do cotidiano para crescer e, assim, atingir a estatura da maturidade de caminhar pelos próprios pés.
De resto, ficarei, na melhor das hipóteses, adequada ao novo com a serenidade ¬de ter encontrado a paz, agradecendo o momento valioso, na perspectiva de que retorne como a curva do rio que se viu na infância e se busca pela vida afora.
Todas as coisas têm seu lugar, todas as pessoas têm seu espaço, todas as procuras têm seu fim quando o sentido de existir se justifica pelas alegrias inesperadas.
Se hoje eu escrevesse pelo momento atual, modificaria quase nada. No espaço entre o ontem e o agora, escrevi outras páginas. Bonitas, algumas delas. Outras, extremamente tristes e amargas. Aprendizado indispensável para valorizar o presente.
A minha verdade se traduz em gestos e palavras com a coerência de ter chegado, sempre pronta para partir. E continuo a ser o que sempre fui: construtora da história da minha vida.
No efêmero de tudo, sou permanente. Não ouço por meias palavras, não sinto pela metade. Sou inteira. Não me fraciono, Estendo-me por sobre o tempo e me dilato no espaço. Destemida guerreira de uma batalha constante, em que defendo a transparência, na coragem de ser emoção e ternura, na medida do que o coração humano é capaz.
Reler páginas escritas em outras épocas é como rever fotos de outrora e visitar de novo a sala de montagem do meu eu, único e peculiar, numa repetição da história do boneco de madeira que adquiriu¬ nervos, músculos, ossos e passou a ter vida.
Precisei conhecer o lado espesso das dores e desencantos para me preparar para o encontro com a luz da alegria da recompensa.
A releitura de mim mesma descortina um “déjá vu” interessante. Extremamente interessante. Deve acontecer o mesmo contigo.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Penso numa Alice descobrindo o seu país. Uma Alice brasileira, nascida em terras férteis de amplos horizontes. Alice, crescendo de tamanho quanto mais o tempo passa para acompanhar o desenvolvimento do país das maravilhas: o Brasil, “gigante pela própria natureza.”
Alice criança, correndo atrás do relógio que marca o tempo certo. O tempo do futuro.
Alice que é cheia de calor humano herdado da confraria imensa que é a gente da terra da boa colheita.
Alice hospitaleira que recebe, em seu lar, todos os povos, pois ela própria é descendente de várias raças.
Imagino uma Alice "feita em casa", respeitando o escritor que criou uma outra Alice em livros memoráveis que imortalizaram a personagem Alice.
É com uma Alice cheia de graça e de garra que eu sonho. É a Alice que vence barreiras, fronteiras e viaja pelo contorno do seu país; mensageira da paz, do congraçamento, de bandeira verde-amarela na mão. Alice que, apesar dos pesares, acredita que o futuro é hoje e a crise mundial poupa os limites da terra amada idolatrada. Alice que tem fé na supremacia da honestidade sobre a corrupção.
É uma figura com a cor do Brasil. Uma Alice que chora, que ri e brinca de roda. Alice que dorme com um ursinho de pelúcia abraçado ao coração e acorda com o brilho do sol. Alice que se cansa e se refaz, que é ferida e cicatriza.
Essa Alice é fruto das maravilhas de sua pátria. Alice do contra-senso, do contraditório. Alice de nariz escorrendo, de pés descalços, de roupas remendadas, que só pisa em calçadas e nunca ouviu falar de cultura. Alice de banho tomado, perfumada, caminhando sobre tapetes, navegando na Internet e no espaço do conhecimento. Alice de altos e baixos, de favelas e palacetes. Alice suburbana e cosmopolita.
Alice filha de um gigante, herdeira, entre milhões, de um império e, também, dos resquícios de uma massa falida.
Alice simples, que se emociona quando canta o hino de sua terra porque procura, em cada frase, a justificativa por amar tanto esse pedaço de chão: rico e miserável, poderoso e frágil, feliz e triste.
Acontece que, essa Alice, é uma Alice comum e faz da brasilidade um canto em uníssono com o povo que assiste desfiles de carnaval na Sapucaí e vibra com jogo de futebol em qualquer gramado.
Porém, não se deixa enganar com disfarces de purpurina, nem com estratégias para desviar sua atenção.
Alice pesquisa, interroga, separa o joio do trigo e forma opinião na liberdade conquistada a duras penas numa “livre terra de livres irmãos”.
A Alice que idealizo é fiel representante de uma raça de bravos e fortes e vive, com muito orgulho, num país do tamanho de um continente, situado no hemisfério Sul do planeta Terra, ás margens do Oceano Atlântico, iluminado pela Via Láctea sob a constelação do Cruzeiro do Sul.
País das Maravilhas!