“São dois pra lá, dois pra cá”, como canta Elis Regina num famoso bolero. Sincronia é imprescindível.
E a vida amorosa se parece muito a um bolero. Desses que se dança de rosto colado, num abraço de coração que bate junto a outro coração.
Dois pra lá, dois pra cá.
A essa altura, me assalta a constatação de que isso tudo é história de uma geração passada. Raros jovens sabem dançar bolero, mas, surpreendentemente, conhecem muito bem as peripécias dos labirintos do amor. Então, o bolero é apenas um detalhe. Que dancem, pois, como queiram.
Gosto de dançar bolero, tipo: “a tua mão nos pescoço, as tuas costas macias”, talvez, por ser uma romântica incurável. Aliás, disso não me quero curada.
Se gostar de receber rosas com cartão apaixonado é romantismo, sou um caso perdido.
Se apreciar o sol se por no horizonte com olhos cheios de emoção e desejar partilhar essa sensação com quem amo, estou na lista dos românticos assumidos.
Se acreditar que a alma gêmea é um pedaço de mim, que se extraviou por aí e, mais dia, menos dia, vai bater na minha porta, sou irremediavelmente romântica.
Se a carícia indizível tocou na alma e deixou vestígios inesquecíveis, se a folha seca, ainda, está guardada entre as páginas de um livro, se a fotografia continua na gaveta em constante repouso e, vez ou outra, a perturbo com meu olhar amoroso, se o teu jeito se acomodava com o meu numa cumplicidade única e, lembro disso a todo instante, pertenço, sem dúvidas, ao rol dos românticos convictos.
“São dois pra lá, dois pra cá”. Muito melhor do que um para cada lado, quando o afeto acaba em descompasso.
E aí, sim, entram em cena todas as gerações. Com bolero ou sem bolero, o romantismo não merece ser deixado à margem, à deriva.
Na tua dança de amor, o ritmo tem que existir, seja ele “Hip Hop”, dança, livre, samba ou bolero.
Amor é ritmo, é maré cheia e maré vazante, é oceano, beijando a areia em ondas que vêm e vão.
“Jogamos nosso bolero/ na ronda dos oceanos/ A vida vem como em ondas,/ dizia nosso poeta./ Nossa canção incompleta/ pode esperar vinte anos./ O amor faz ondas redondas/ até quebrar como eu quero.” (Chico Buarque)
Dois pra lá, dois pra cá, até que o romantismo desapareça, o amor acabe, a cadência se perca e fique esquecida na posta restante da vida.
Por ora, permaneço adepta ao bolero que me enlaça e me faz rodar ao som da melodia, sussurrando ao meu ouvido: “são dois pra lá, dois pra cá.”
25 outubro 2009
20 outubro 2009
15 outubro 2009
PRESENÇA
Aos poucos, a percepção inconsciente foi me ensinando sobre assuntos que não são, aparentemente, relevantes, porém fazem toda a diferença quando se precisa exercitar o ato de viver em situações para as quais inexiste manual de procedimento e nem receita em sites de busca na Internet ou fora dela.
O significado de presença, por exemplo, consegue extrapolar da definição do dicionário e foge acelerado, desde que se queira explicar o seu sentido na realidade do dia a dia.
Presença é aquela companhia invisível que nos fazem os pensamentos quando alçam vôo e escapam ao nosso controle, viajando por onde querem, visitando lugares, abraçando pessoas.
Existe em cada um de nós um recanto, um cofre onde armazenamos tesouros de vivências de ontem e de hoje, também. Tesouros que vencem espaço e tempo porque podem ser vistos, tocados e sentidos.
Aprendi que, na minha mania de fotografar momentos especiais, as imagens que estão nos porta retratos realçam presenças inesquecíveis.
Presença não é antônimo de ausência. Presença é o contrário de vazio.
Pois foi, exatamente, esse ponto de vista que me ajudou a compreender meu sentimento de paz ao organizar as memórias encontradas em manuscritos. Ao ficar órfã, meses atrás, tive que encarar a tarefa de mexer em guardados. Descobri cartas, fotos, documentos. Arquivos de vida dos meus antepassados, de mim mesma, dos meus descendentes. Uma aventura fascinante plena de fortes emoções. Laços de sangue, de risos e de lágrimas. Amores incondicionais.
Daí, o pensamento envereda por outros rumos e fica no ar a pergunta: - E no que se refere ao que está fora desse círculo? Como se lida com a falta da presença do amor condicional? Daquele amor humano que exige troca, recompensa, parceria?
Confesso que silenciei. Parei estagnada sem saber como explicar o que penso a respeito.
Com a prática de associar idéias e puxar pela memória foram chegando, naturalmente, as palavras cantadas pela Adriana Calcanhoto: “Ainda tem o seu perfume pela casa./ Ainda tem você na sala/ Por que meu coração dispara/ Quando tem o seu cheiro dentro de um livro/ Dentro da noite veloz.”
Fechou com tudo. Essa é a desfaçatez do significado da presença. Presença que fica apesar e além da ausência, vencendo desejos, sobrepondo-se a desencontros, suprindo vácuos, dando sentido ao amor que por si só, se basta. Ele existe e, pronto!
E, então, entrou na sala em meio ao alvoroço da minha garimpagem, o Senhor Poeta Fernando Pessoa, dizendo taxativamente: “Penso em ti e dentro de mim estou completo. O amor é uma companhia”.
Fiquei sem fôlego ao mergulhar de cabeça na profundidade de cada frase. Eu não poderia dizer mais e melhor.
Presença é o que se busca na desculpa de se ter companhia porque a ausência nos angustia. O pânico de ficar só anula o raciocínio coerente e nos impede de ver o que a realidade nos fala.
A presença de quem amamos está sempre ao nosso lado. E para arrematar, continua Pessoa a soprar nos meus ouvidos: “Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.”
O significado de presença, por exemplo, consegue extrapolar da definição do dicionário e foge acelerado, desde que se queira explicar o seu sentido na realidade do dia a dia.
Presença é aquela companhia invisível que nos fazem os pensamentos quando alçam vôo e escapam ao nosso controle, viajando por onde querem, visitando lugares, abraçando pessoas.
Existe em cada um de nós um recanto, um cofre onde armazenamos tesouros de vivências de ontem e de hoje, também. Tesouros que vencem espaço e tempo porque podem ser vistos, tocados e sentidos.
Aprendi que, na minha mania de fotografar momentos especiais, as imagens que estão nos porta retratos realçam presenças inesquecíveis.
Presença não é antônimo de ausência. Presença é o contrário de vazio.
Pois foi, exatamente, esse ponto de vista que me ajudou a compreender meu sentimento de paz ao organizar as memórias encontradas em manuscritos. Ao ficar órfã, meses atrás, tive que encarar a tarefa de mexer em guardados. Descobri cartas, fotos, documentos. Arquivos de vida dos meus antepassados, de mim mesma, dos meus descendentes. Uma aventura fascinante plena de fortes emoções. Laços de sangue, de risos e de lágrimas. Amores incondicionais.
Daí, o pensamento envereda por outros rumos e fica no ar a pergunta: - E no que se refere ao que está fora desse círculo? Como se lida com a falta da presença do amor condicional? Daquele amor humano que exige troca, recompensa, parceria?
Confesso que silenciei. Parei estagnada sem saber como explicar o que penso a respeito.
Com a prática de associar idéias e puxar pela memória foram chegando, naturalmente, as palavras cantadas pela Adriana Calcanhoto: “Ainda tem o seu perfume pela casa./ Ainda tem você na sala/ Por que meu coração dispara/ Quando tem o seu cheiro dentro de um livro/ Dentro da noite veloz.”
Fechou com tudo. Essa é a desfaçatez do significado da presença. Presença que fica apesar e além da ausência, vencendo desejos, sobrepondo-se a desencontros, suprindo vácuos, dando sentido ao amor que por si só, se basta. Ele existe e, pronto!
E, então, entrou na sala em meio ao alvoroço da minha garimpagem, o Senhor Poeta Fernando Pessoa, dizendo taxativamente: “Penso em ti e dentro de mim estou completo. O amor é uma companhia”.
Fiquei sem fôlego ao mergulhar de cabeça na profundidade de cada frase. Eu não poderia dizer mais e melhor.
Presença é o que se busca na desculpa de se ter companhia porque a ausência nos angustia. O pânico de ficar só anula o raciocínio coerente e nos impede de ver o que a realidade nos fala.
A presença de quem amamos está sempre ao nosso lado. E para arrematar, continua Pessoa a soprar nos meus ouvidos: “Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.”
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