22 novembro 2009

ADAPTANDO



Fiz uma viagem no túnel do tempo, forçada pela situação causada pela falta de energia elétrica, depois de um temporal. Precisei espalhar castiçais pela casa para que as velas iluminassem a escuridão nos intervalos dos raios que luziam estrondosos na noite lá fora. Fiquei me sentindo inserida no cenário do filme “E o vento levou...”. Se estivesse usando um figurino daquela época, tudo ficaria completo.
Mas, saudosismos a parte, não foi agradável me adaptar ao “como era antes.” Meus ancestrais viviam sem o conforto que usufruo, graças ao processo criativo que as invenções oferecem na atualidade.
O telefone emudecido. A Internet desconectada totalmente. Para preparar um café voltei ao fogão a gás. Nem pensar na cafeteira.
Rendi-me ao inevitável e comecei a escrever com tinta o texto dominical numa folha de papel. O computador de nada me valia naquele momento. Essa adaptação é um recurso de que nos valemos para driblar os inconvenientes. Inconvenientes que, ironicamente, surgem para nos desacomodar.

ALMA LIVRE (conversa de fim de tarde)



Se o teu olhar se prende em alguma linha perdida no horizonte, a alma voa como borboleta solta nas próprias asas, buscando o ilimitado do espaço. E a solidão fica ridícula, relegada a um canto da casa como ornamento desnecessário e inoportuno.
A alma tem dessas manias e ai de quem não acompanhar o ritmo do seu vôo.
De nada servem silêncios de armazéns habitados por gatos e ratos. É preciso a algazarra de um bazar de mercado persa cheio de bugigangas que fascinam, que encantam, que iludem. Por essas e por outras, a alma sente necessidade de escapar por entre labirintos, vales, mares e ares.
A tua imaginação permite que a alma dê umas escapadas por esse universo fascinante. Tudo é mistério a ser desvendado. Vastas dimensões em que a fantasia dita as regras.
E, ademais, de que são feitas as realidades senão de ilusões, de fascínio, de encantamento?
Nada é verdadeiro além dos teus limites avarandados onde se amontoam teus cuidados inúteis.
Mesmo que não desejes a dor, ela se aproxima e se aninha no calor das tuas alegrias e agoniza junto ao abandono em que vives, pois não te enganes: a tua absurda solidão é o espelho da tua fracassada tentativa de ser além do permitido pela casca que te envolve. E o que és, afora um arcabouço de ilusões, de um sonho, de um “bric” de trastes que não sabes bem onde colocar ou o que fazer com eles?
És o teu próprio algoz se colocas tuas vontades nas mãos do imutável. Deixa a vida te levar. Permite a surpresa, o susto, a risada solta, a liberdade de realizar sem limites as quimeras que, louco, sonhaste na idade do ontem.
Solta a alma para que viaje por onde bem queira e quando regressar, abre os braços para recebê-la. Talvez, ela traga alguma boa nova.
E como sempre, tudo passa: “não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe”; trata de acordar e encarar o cotidiano que tem horário a ser cumprido e obrigações a serem feitas.
Logo mais, ao entardecer, é bem provável que tua alma tenha ímpetos de fazer um “tour” panorâmico sem bagagem, sem passaporte e com muita vontade de ficar distante desse burburinho que te rodeia. Aproveita a carona e vai junto com ela. A tua alma está alinhavada no teu corpo e não pesa. Ela é leve e etérea e, surpreendentemente, tem força suficiente para te carregar nos braços.
Tenho certeza que o passeio será prazeroso e inesquecível.
Faz muita falta reabastecer as energias. E o que de melhor pode se fazer do que usar e abusar da recarga de uma alma livre?