24 novembro 2010

GOSTAR

Num primeiro momento pode parecer que assumo uma postura radical mas, sob a perspectiva desse hábito próprio de vasculhar os sentimentos e esmerilhar o que o dia a dia tece na vida de alguns, constato que só o passar do tempo faz com se aprenda a gostar de alguém.

A euforia que começa a brotar dentro do peito, que ruboriza a face e altera os batimentos cardíacos é a manifestação momentânea de um curto-circuito interno provocado pela empatia de olhares que reconhecem alguma identificação, similaridade ou qualquer coisa comum de dois. Esse é o despertar de afinidades num ensaio geral antes da estréia. Melhor dizendo, é nesse instante que a fagulha provoca o incêndio.

Tenho conhecimento de alguns casos em que o fogo provocou severas queimaduras. Em muitos, bastou um jato de água fria para amainar as dores. Noutros as cicatrizes ainda estremecem ao simples toque do vento.

Com o passar das horas, a rotina do cotidiano faz com que os ânimos se acalmem por si mesmo e dêem espaço ao desenrolar natural de querer bem, de ficar junto, de polir arestas, de apreciar o agradável e aceitar o outro como ele é, sem exigir mudanças de comportamento amoldadas ao desejo subjetivo de que tudo precisa ser exatamente como se quer.

E aí reside a origem dos sentimentos naufragados, enterrados, perdidos, desaparecidos nos mares do nunca mais. Nada nem pessoa alguma são exatamente como se deseja que sejam.

Respeitadas, pois, as diferenças, os preciosos detalhes de cada um, possível é que se enraíze o gostar. O gostar simples e inteiro, que não esmorece com a distância e se fortalece com o tempo.

Nenhuma semeadura escapa das intempéries. Sempre se está sujeito aos inconvenientes do desconhecido. Porém, apesar de tudo, o gostar sobrevive ao tempo, se alimenta do tempo e frutifica no tempo que bem lhe apraz.

Gostar exige respeito e admiração. Aliás, para se gostar de fato e de direito é imprescindível que se admire o outro.

Gostar de alguém requer prática e habilidade, conhecimento de jardinagem, de mudanças climatológicas, de alinhavos e de costuras, de persistência e coragem, de compreensão e ternura, de intimidade e parceria.

Gostar de outrem é identificar numa multidão um rosto único, especial, que faz tanto bem quanto o de um raio de sol depois da tempestade. É reconhecer no perfil alheio alguma semelhança refletida no espelho de nós mesmo.

Gostar é sentir-se em casa na alma de quem se gosta. Gostar é passível de ser amigo em qualquer latitude ou longitude na dimensão do afeto e na proporção do tempo.

E por falar em amizade, benditas sejam todas as que colecionamos ao longo da vida. Amizades de ontem e de hoje. Amizades que continuam na lembrança mesmo tendo sido arrebatadas pela poderosa senhora dos destinos que, na maioria das vezes, se precipita e ceifa sem piedade um pouco de nós na prematura e definitiva partida de um amigo.

A laboriosa ação do tempo, entretanto, conserva e mantém sempre acesa a chama do querer bem na sintonia dos sentidos.











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