15 abril 2012

OLHARES



          Sou uma convicta amante das palavras. Sei o quanto elas apreciam ser acariciadas. Mesmo as mais rudes e opacas não dispensam um toque de ternura para atenuá-las. E de palavra em palavra monto um texto, prezando sobremaneira a harmonia do enredo. As imagens se sucedem para me auxiliar na tarefa.  Ás vezes, alguns congestionamentos são inevitáveis.  As palavras não acompanham o ritmo das ideias. Demora um pouco mais de tempo para conseguir sincronizar o fluxo do tema na coerência desejada.
         O gênero – crônica - exige muito fôlego do escritor. É um trocar de roupa, de vestir outras peles, de inspirar, respirar, expirar e, principalmente, sentir. E expor. Expor os sentimentos de muitos no descaramento de expor os seus próprios.
         Claro que, quem escreve, nem sempre se coloca completamente à mostra. Artifícios do ofício. Necessários e indispensáveis.

         Nesse anoitecer na companhia de uma chuva tênue resolvi escrever sobre olhares. Isso mesmo. A diversidade fantástica dos olhares (que confesso serem uma das minhas paixões secretas).  O olhar é o rival da palavra no que me concerne, pois amo a palavra, mas não resisto ao olhar.
         As janelas da alma são os olhos, segundo Leonardo da Vinci. E através dessas janelas se vislumbram emoções que se despem de artimanhas.  Olhares não usam disfarces. Nascem de cara limpa e lavada. Expressam a essência do momento com a precisão de um relógio suíço.
         Caminhando pela rua cruzo com muitos olhares. Olhares tantos. Olhares dispersos em múltiplas direções. Olhares fora de alcance.
         No entanto, quando o ambiente se restringe os olhares passam a ser perceptíveis. Olhares espontâneos e quase que palpáveis.
         Gosto de olhares que se encontram em espanto ou surpresa, em encanto ou aflição, em cumplicidade ou admiração, em descoberta ou ternura, em complacência ou identidade.
         Acredito que a alma não pode ser catalogada sob a ótica da cronologia. Alma parece não ter idade. Ou melhor, a alma se alterna em tempo e espaço. Portanto, muitas vezes, se percebe num adulto um olhar de criança e num jovem, um olhar antigo.
         Como escreveu Fernando Pessoa (Alberto Caieiro): “O meu olhar é nítido como um girassol/Tenho o costume de andar pelas estradas/Olhando pra direita e para a esquerda, /E de vez em quando olhando para trás... /E o que vejo a cada momento/É aquilo que nunca antes eu tinha visto, /E eu sei dar por isso muito bem... /Sei ter o pasmo essencial/Que tem uma criança, /Se ao nascer, /Reparasse que nascera deveras... /Sinto-me nascido a cada momento/Para a eterna novidade do Mundo...”.
         O olhar que me fascina é o olhar de amor. O olhar de descoberta do outro. O olhar que se prende e se sustenta e se derrama em ternura. Quem ama fala pelo olhar para além do que as palavras são capazes de se expandir. Ah! As expansões de um olhar de amor!  Quem as dispensa?  Quem resiste a elas?
         O olhar de quem ama é indisfarçável. Delata e dilata o sentimento sem o uso de palavras.
         Rendo-me ao poder desses olhares.  Emudeço imobilizada e dispenso a palavra dita ou escrita.
        
        



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