11 agosto 2007

SAUDADE

A gente tenta lidar, de uma forma ou de outra, com os percalços da caminhada e descobre sempre uma alternativa para driblar os inconvenientes que surgem, desacomodando a vida.
Uma decepção, um desencanto, uma perda, um dissabor. Tudo isso e muito mais, o tempo consegue apagar, silenciar, dissipar. O passar das horas, no relógio da existência, tem um efeito balsâmico e reparador. É medicamento eficaz que ajuda na convalescença de enfermidades variadas. Porém, existe uma contra-indicação:- é inútil tentar usar o tempo para combater a saudade. Saudade é imune à ação do tempo. Aumenta na medida em que os dias passam e extrapola para além dos limites dos anos.
Existem saudades antigas e saudades novas. Saudades de perto e saudades de longe. Saudade de antes e saudades de sempre.
Saudade de cadeiras nas calçadas em fins de tarde. Saudades de fins de tarde com sol desmaiando nos braços da noite. Saudade da noite plena de estrelas, brilhando no campo negro do espaço. Saudade do espaço entre o pranto e o riso. Saudade do riso da infância e da festa da inocência. Saudade da inocência e da ausência de sofrimento. Saudade do amanhecer de ontem e saudade da noite anterior. Saudade de quem entregamos para a morte e dos que oferecemos para a vida. Saudade dos pais e saudade dos filhos. Saudades da terra natal e saudades de casa.
De grandes e de pequenas saudades é feita a existência de cada um. E, porque não existe remédio, alastra-se como epidemia, contaminando, indistintamente, homens e mulheres de todas as idades.
Saudade é fonte de inspiração, tema de livros, de cartas guardadas, de páginas e fotos amarelecidas.
Saudade é o que fica, o que resta sedimentado no cartório da vida; registros documentais do que foi, ontem e antes, comprovando os acontecimentos com firma reconhecida e autenticada.
E como a saudade é bonita, reflete no espelho da memória a beleza de tudo que a enfeita, nessas lembranças presentes do que se supõe ausente.
A saudade vive comigo. A mesma saudade que motivou esta crônica. Uma saudade que se renova a cada dia, brilhando, como esmeralda pura no meu olhar. Pois, a saudade tem sempre saudade de tudo que é valioso.
Talvez, a saudade se origine no ofício de querer bem, exercitando emoções e sentimentos dentro da nossa alma. E de repente, se traduza em melancolia quando nos vira do avesso se a distância acontece. Nostálgicas sensações do vazio que fica.
Palavra sacramentada na língua portuguesa como vocábulo único e genuíno não encontrado em outros idiomas; saudade não tem tradução.
Saudade que imprime com ferro e fogo, as marcas de tudo e de todos os que passaram por nossas vidas.
Afinal, quem de nós não tem a alma tatuada por rabiscos invisíveis de saudade?
Maria Alice Estrella

4 comentários:

Zé Carlos disse...

Oi Malice querida, seja muito bem-vinda à blogosfera...
Você com esta capacidade e inspiração que Deus lhe deu, terá com certeza um blog memorável.
Apareça se não para um cafezinho para uma bomba...
Bjs do teu amigo

Zé Carlos disse...

Este template personalizado está o máximo, parabéns.....

Verinha disse...

Escrevestes sobre a saudade como uma "expert".. Muito lindo! Sabes, entao o que sinto todos os dias longe de ti!

Mil beijos,

Verinha

Clarisse disse...

Maria Alice querida, que lindo o que escrevestes sobre a saudade, me levou a um tempo distante em que convivi um pouco com vcs na Benjamin Constant e agora sinto que foi muito bom te reencontrar em Pel, mesmo que só por um momento. És muito querida para mim. Um grande beijo