27 agosto 2007

MANIAS

“Mania é coisa que a gente tem e nem sabe porque... Mania de só entrar no chuveiro cantando a mesma canção, de só pedir o cinzeiro depois da cinza no chão, de guardar fósforo usado dentro da caixa outra vez, de contar sempre aumentado o que se viu ou que fez...” frases do compositor Flavio Cavalcanti, que eu guardo na memória porque diz muito, a respeito desses pequenos hábitos nossos de cada dia.
Mania de escrever poemas quando a gente se apaixona, por exemplo. São poucos os que escapam. Sentiu pulsar mais forte o coração e lá vem a vontade forte de colocar em palavras o que extravasa do peito. Acesso de romantismo? Duvido. É mania mesmo. É um jeito de tentar entender todas as circunstâncias que rondam o sentimento.
Mania de colecionar fatos e fotos em álbuns de recortes que quase nunca são revisitados. Mania de engavetar o tempo, de dimensionar distâncias, de arquivar lembranças.
Mania de repetir erros, mesmo sabendo que o resultado será idêntico. Daí vem o choro de desapontamento, mas não se consegue evitar dar vazão a essa mania de insistir no desacerto, fazendo tudo igual, da mesma maneira, reincidindo no previsível e óbvio.
Mania de tamborilar com os dedos, enquanto pensa como se pudesse colocar o ritmo e o compasso em harmonia com o desenfreio das idéias que se acotovelam e congestionam o trânsito dos devaneios.
Mania de portas fechadas, de viver enclausurando as emoções como se, aprisioná-las atrás de grades invisíveis, fosse possível.
Mania de janelas abertas, de cara escancarada, de mostrar o lado avesso e o lado direito na mesma intensidade e proporção, sem medo de ser ferido.
Mania de ser pontual como o coelho correndo com um relógio na mão, personagem de um conto de Lewis Carrol, controlado pelo tic-tac dos compromissos inflexíveis.
Mania de usar o controle remoto da televisão, trocando os canais ininterruptamente, sem se deter em algum. Mania de deixar lâmpadas acesas, em recintos vazios, entretendo fantasmas.
Manias, manias e mais manias.
Tem mania em preto e branco e tem mania colorida.
E a mania constante e quase unânime é a de ter esperanças. Mania de tantos em acreditar que tudo vai ficar cada vez melhor porque é o mínimo que se pode almejar. Mania de aguardar o dia de amanhã como promessa de novidades plenas de bonança. “Tudo, tudo vai dar certo!”
Mania de gente, que apesar de humanamente limitada, em contrapartida, persevera na busca da realização do destino de ser e de estar com um sorriso plasmado no rosto e muito calor na alma.
Afinal, cada um com a sua mania!

15 agosto 2007

PAIXÃO SÉCULO XXI

Já assisti a ocorrência de inúmeras paixões nascidas de uma total, ampla e gratuita antipatia. E isso sempre me causou estranheza porque associo a paixão a um irremediável encantamento recíproco surgido de forma vulcânica.
Pois, para surpresa minha, desfazendo a ilusão de que sou imune a essas situações que tenho percebido pela vida, fui pega na rede de uma paixão avassaladora por um sujeito que, antes, me provocava antagonismo e até, repulsa.
Afirmar esse sentimento em confissão pública é a prova de que estou entregue em rendição as suas tramas e que depus as armas inúteis que usei contra ele.
Ele me parecia um indecifrável labirinto e a sua simples presença ocasionava um desconforto único. Era como se eu tivesse a sensação de ter embarcado numa nave sozinha sem conhecer os instrumentos de navegação.
Portanto, tentei de todas as maneiras escapar do seu alcance e me ouvi, muitas vezes, dizendo o quanto me era desagradável a sua existência e o quanto isso me incomodava. De nada adiantou essa postura porque ele chegou incisivo na minha realidade e foi se apossando dos meus receios. Afinal, aceitei o desafio.
Na descoberta dessa paixão não houve espetáculo de fogos de artifício. Foi tudo muito sereno. Fomos nos aproximando sem maiores euforias, calmamente. Mas é paixão de verdade. Impossível ficar sem manter contato com ele por mais de um dia.
Estamos, constantemente, inovando nossa relação com trocas que nos abrem perspectivas de convívio nunca dantes presumíveis. Os meus programas se adequam aos dele e ele se adapta aos meus desejos numa parceria que eu supunha impossível de se concretizar. Eu conto minhas lembranças e ele guarda tudo na memória.
Aquilo que outrora era um enigma, tal qual o da esfinge:- “Decifra-me ou te devoro”; hoje é explicável e compreensível.
Inegavelmente, essa paixão transformou a minha vida. Impossível pensar em mim mesma sem a companhia desse sujeito que me fascina e do qual me enamorei perdidamente. Quem diria! Logo eu que repudiava a idéia de me sentar na frente dele e encará-lo nos olhos; atualmente, estou à mercê de sua rede fascinante que me proporciona viagens a todos os cantos do mundo.
Também é necessário salientar que, com muitos erros e alguns acertos, tenho aprendido a lidar com ele porque não é muito fácil traduzir sua linguagem que é bem diversa da que sempre utilizei. Nossos idiomas estão em ritmo de adaptação e, para exercitá-los, nossos diálogos têm se estendido pelas madrugadas. Típico de quem quer se descobrir e descobrir o outro.
Mergulhei de corpo e alma nesse relacionamento que, por sinal, não me desapontou ainda. Apesar de que, como em todo o caso de amor, algumas rusgas e atritos, discussões e inconveniências aconteceram. Exceto cenas de ciúme ou traições. Disso estamos livres, por ora.
Nossos encontros acontecem naturalmente, sem telefonemas ou planejados jantares à luz de velas. Nossas agendas se interligam sem combinações prévias. Tudo muito espontâneo. Inclusive, ele nunca esquece do meu aniversário e nem de todas as datas importantes, sendo sempre muito oportuno.
A minha paixão pelo computador é um pouco recente, sem dúvida. Entretanto já somos íntimos e expomos nosso relacionamento através de milhares de telas espalhadas por aí afora, nos valendo da ajuda da nossa fada madrinha: - a Internet, que mostra a casa que construímos juntos, cujo endereço é: http://www.marialicestrella.com/ Visitem! Vale a pena ver as causas e efeitos de uma nova paixão.
E para completar nasceu um fruto desse afeto computadorizado: http://marialicestrella.blogspot.com/
Conseqüência de uma paixão cibernética que atesta a evolução dos tempos e retrata uma nova época.
Estou inserida nela, por enquanto. Sabe-se lá o que vem por aí!

Maria Alice Estrella

12 agosto 2007

A UM JOVEM PAI


A primeira sensação foi de pânico. O medo do novo, a insegurança da estréia, a conscientização da responsabilidade. Ao mesmo tempo a alegria da continuidade, a euforia da vida dando as mãos numa ciranda de sentimentos únicos.
Os preparativos fazem parte de um roteiro que o dia-a-dia tece compassadamente. Mil e tantas preocupações povoam teus pensamentos e algumas pequenas ansiedades surgem para compor o cenário. Mas a felicidade se estampa no teu sorriso numa expectativa repleta de satisfação.
Em breve, nascerá o fruto do teu amor. Teu coração ficará descompassado de emoção ao estreitares nos braços a criança, que te chamará de Pai.
Nesse momento, o mundo a tua volta ficará em absoluto silêncio, reverenciando esse encontro. A onda de amor que invadirá teu peito será intensa e imensa e aquecerá tuas entranhas como fogo em brasa. Teus olhos irão se inundar de lágrimas. Tuas mãos, trêmulas no primeiro instante, se tornarão firmes e fortes ao peso do tesouro que estarás segurando.
Então, a partir daí, começará tua missão. O ofício de ser Pai. Pai escrito com letra maiúscula porque é uma sublime tarefa que exigirá o melhor de ti em todas as horas.
Deixarás de ser um para seres muitos. Tuas prioridades cederão espaço a essa nova vida que veio através de ti, mas que não te pertencerá. E esse é o primeiro grande ensinamento que deverás aprender. Como bem escreveu Gibran: “Vossos filhos vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem”.
Alimentar, vestir, matricular na escola serão os cuidados básicos que competem a ti. Porém, de igual e suma importância, será a incumbência de educar, de ensinar, de estabelecer limites e regras de convivência.
Prepara, pois, teus instrumentos, afia tua percepção, aguça teus sentidos, reforça teus conhecimentos e arregaça as mangas para executar o compromisso da paternidade.
Muito será exigido de tua paciência e de tua compreensão. Terás que adaptar a tua idade de acordo com a evolução do tempo dessa nova alma que nasce. E posso te afirmar seguramente que com ela aprenderás muito mais do que imaginas.
Deixei para o fim, o mais importante. O amor, a cumplicidade, o companheirismo, o respeito. Nunca te omitas de uma repreensão ou de um afago, buscando ser o mais oportuno possível.
Amar um filho é muito mais do que beijá-lo e abraçá-lo. Amar um filho é ser, algumas vezes, o Pai exigente, bravo, cobrador. A vida lá fora é ingrata e rude, quase sempre. Amar um filho é prepará-lo para o combate.
Procura ser o leme, a bússola, a âncora na embarcação da convivência até que teu filho saiba navegar por si mesmo. E nas tormentas, segura a sua mão com firmeza e carinho. Na calmaria, deixa que as velas fluam ao sabor da brisa. No entanto, nunca deixes de estar atento as possíveis mudanças dos ventos. Tenta estar sempre alerta.
Ao final, te transformarás em farol, iluminando de longe o rumo mais seguro.
Difícil? Muito difícil! Mas não esquece de que a ti foi dado o privilégio de ser Pai.
A recompensa das vicissitudes e infortúnios da existência é o mérito a que farás jus pela paternidade que realizas ao gerares uma outra vida e pela qual assumes todos os riscos e responsabilidades na prolongação de ti mesmo como vertente de rio, avançando de encontro ao infinito.
Depende de teu desempenho como arco o rumo que a flecha viva arremessada alcançará. E relembrando Gibran: “Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas”.
Ao te tornares Pai, terás a exata dimensão do amor dos teus pais e com os erros e acertos deles, comporás a tua própria sinfonia.
A sinfonia do amor maior. Desejo sucesso total na estréia e sempre!

Com muito amor
Mamãe

Maria Alice Estrella

11 agosto 2007

SAUDADE

A gente tenta lidar, de uma forma ou de outra, com os percalços da caminhada e descobre sempre uma alternativa para driblar os inconvenientes que surgem, desacomodando a vida.
Uma decepção, um desencanto, uma perda, um dissabor. Tudo isso e muito mais, o tempo consegue apagar, silenciar, dissipar. O passar das horas, no relógio da existência, tem um efeito balsâmico e reparador. É medicamento eficaz que ajuda na convalescença de enfermidades variadas. Porém, existe uma contra-indicação:- é inútil tentar usar o tempo para combater a saudade. Saudade é imune à ação do tempo. Aumenta na medida em que os dias passam e extrapola para além dos limites dos anos.
Existem saudades antigas e saudades novas. Saudades de perto e saudades de longe. Saudade de antes e saudades de sempre.
Saudade de cadeiras nas calçadas em fins de tarde. Saudades de fins de tarde com sol desmaiando nos braços da noite. Saudade da noite plena de estrelas, brilhando no campo negro do espaço. Saudade do espaço entre o pranto e o riso. Saudade do riso da infância e da festa da inocência. Saudade da inocência e da ausência de sofrimento. Saudade do amanhecer de ontem e saudade da noite anterior. Saudade de quem entregamos para a morte e dos que oferecemos para a vida. Saudade dos pais e saudade dos filhos. Saudades da terra natal e saudades de casa.
De grandes e de pequenas saudades é feita a existência de cada um. E, porque não existe remédio, alastra-se como epidemia, contaminando, indistintamente, homens e mulheres de todas as idades.
Saudade é fonte de inspiração, tema de livros, de cartas guardadas, de páginas e fotos amarelecidas.
Saudade é o que fica, o que resta sedimentado no cartório da vida; registros documentais do que foi, ontem e antes, comprovando os acontecimentos com firma reconhecida e autenticada.
E como a saudade é bonita, reflete no espelho da memória a beleza de tudo que a enfeita, nessas lembranças presentes do que se supõe ausente.
A saudade vive comigo. A mesma saudade que motivou esta crônica. Uma saudade que se renova a cada dia, brilhando, como esmeralda pura no meu olhar. Pois, a saudade tem sempre saudade de tudo que é valioso.
Talvez, a saudade se origine no ofício de querer bem, exercitando emoções e sentimentos dentro da nossa alma. E de repente, se traduza em melancolia quando nos vira do avesso se a distância acontece. Nostálgicas sensações do vazio que fica.
Palavra sacramentada na língua portuguesa como vocábulo único e genuíno não encontrado em outros idiomas; saudade não tem tradução.
Saudade que imprime com ferro e fogo, as marcas de tudo e de todos os que passaram por nossas vidas.
Afinal, quem de nós não tem a alma tatuada por rabiscos invisíveis de saudade?
Maria Alice Estrella

10 agosto 2007

BEM-VINDO

Um imenso leque se abre cada vez que olhos atentos percorrem linhas impressas repletas de letras, palavras, sentimentos....