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01 junho 2021

TURBULÊNCIAS

 


TURBULÊNCIAS

Maria Alice Estrella

 

         Mudaram os tempos e com eles se transformou também a maneira de comunicar acontecimentos.

         Houve época em que nas aeronaves de passageiros se ouvia o aviso dado por um dos tripulantes de voo de que os cintos de segurança precisavam ser afivelados porque o avião sofreria alguma turbulência.

         Cerca de 40 anos atrás era comum que as tais turbulências ocorressem de forma inquietante e até assustadora para alguns.    O avião parecia uma cristaleira sacudida por ventos e caindo em vácuos que pareciam não ter fim.

         Quem passou por esse tipo de experiência nunca mais esqueceu, com certeza. Particularmente, lembro de grandes sustos mesmo tendo sempre ouvido de meu pai tripulante aeronáutico que “turbulências não derrubam aviões. ”

         Nos dias atuais, se ouve o aviso de atar cintos “porque passaremos por uma zona de instabilidade. ”

         Agora turbulência passou a ser instabilidade como se pudesse ser trocado o medo e a sensação de insegurança por algo diferente. Instabilidade ou turbulência causam idêntica sensação.  A sensação de que ficamos soltos no ar, apesar de estarmos atados na poltrona, enquanto uma verdadeira orquestra de ruídos estranhos açoita a fuselagem da aeronave é a mesma sensação que vivemos desde março de 2020.

         A turbulência está generalizada dentro e fora de cada um.  A gente tenta colocar os pés no chão, mas está muito difícil manter o equilíbrio.

         Mais de um ano se passou e parece que o grão de areia da ampulheta das horas ficou trancado no êmbolo, estrangulando o tempo. Angustiantes dias sentados na sala de espera em busca do milagre da imunidade.

         Tudo virado do avesso, mostrando o lado frágil de todos.  E de certa forma ao expor nossos medos vestimos roupagens de coragem e atamos os cintos para atravessar a zona de turbulência, que dá a impressão de não ter fim.

         A ordem que vem de dentro do peito é a de que eu siga acreditando que tudo vai melhorar, na instabilidade do espaço entre um passo e outro, porque a esperança é o que me faz guerreira valente nessa luta conturbada e desigual.

         E a luz através da vidraça invade meus olhos e corre solta pelas minhas veias, perpetuando o que as turbulências não afetam nas paisagens que ainda esperam por mim.

         E o meu poeta querido traduziu, sem saber, o que sinto aqui e agora, sempre: “Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade. / E é como se agora este pobre, este único, este efêmero instante do mundo/ Estivesse pintado numa tela, / Sempre. “ (Mario Quintana)

        

23 maio 2021

RECARGA

 


RECARGA

Maria Alice Estrella
O sinal avisava que era preciso conectar o aparelho no carregador.
Obediente, pluguei o cabo e o conectei na rede elétrica.
Imediatamente, surgiu a imagem correlata no meu cérebro. Acontece
quase sempre assim, dessa forma, a ideia para o texto de domingo. Meros
fatos dão origem a pensamentos vários.
Bem que eu gostaria de ter vindo ao mundo com um carregador de
baterias, desses que acompanham os telefones celulares. Quero muito
descobrir de que maneira me é possível recarregar minha bateria.
Os livros de autoajuda proliferam nas estantes das livrarias com mil e
uma receitas e dicas de como reabastecer as energias desgastadas ela
erosão do tempo implacável e dos revezes sem conta.
Eu não quero receitas; quero um carregador portátil que me
acompanhe noite e dia e reponha as minhas forças cada vez que se faça
necessário. E olha que não são poucas! Preciso recuperar o vigor a cada
instante de incerteza, de medo, de expectativa. Nas horas enoveladas entre
o sim e o não, entre o ficar e o partir, entre a solidão e a companhia.
O consumo de energia corporal e espiritual se identifica com o campo
real e o virtual. Esgoto minhas reservas físicas em exercícios de
alongamento e caminhadas. Recupero-me com um banho morno e uma noite
de sono bom. Dissipo meu celeiro de armazenamento emocional em sustos e
angústias. E ainda não descobri um modo de "calibrar o ar dos pneus"
invisíveis.
Haja fôlego!
Sem recarga fica difícil usar o telefone celular. Muito mais difícil
equilibrar o desgaste do corpo e da alma sem via de reabastecimento.
Uma das lições que aprendi nessas estreias cotidianas, entre o abrir e
o fechar de olhos, é de que não existe passe de mágica ou estalar de dedos
que reponha as energias esvaídas.
E "tem dias que a gente se sente como quem partiu", como escreveu o
Chico Buarque. Ninguém escapa dessa sensação, ao menos uma vez na vida.
A nítida impressão de que saímos de nós mesmos para algum lugar que não
existe. Um vazio de estação de trem quando o ultimo deixou a gare e o
silêncio povoa os trilhos.
Para esse momento especifico é que desejo intimamente uma recarga
potente. Vontade de me plugar numa corrente elétrica que acenda luzes na
alma e reabasteça os ânimos. Reanimar o que desfaleceu em mim por
exaustão, por uso demasiado.

Insisto veementemente na necessidade de se ter um aparelho com
mecanismos passíveis de recarregar nossas baterias interiores.
A energia extraordinária e fantástica de que somos feitos é
perecível, infelizmente.
Porém, tenhamos nós a idade que tivermos, usamos engrenagens
criativas para repor as forças tão logo nos sintamos ameaçados e
recobramos o fôlego, sem nos deixarmos abater por falta de energia. É tiro
e queda!
E, por arte de uma boa memória surgem os versos de Gonçalves Dias
para contribuir com meu ponto de vista: "Não chores, meu filho, não chores,
que a vida é luta renhida. Viver é lutar. A vida é combate que aos fracos
abate e aos fortes e aos bravos só pode exaltar."
Esse é, sem dúvida, o meu carregador invisível: a coragem.
E o teu, qual é?







18 maio 2021

GANGORRA


GANGORRA

Maria Alice Estrella

 

         Gangorra é um brinquedo a dois. Indispensável em qualquer praça de divertimento mesmo nas mais modernas.

         Atualmente, a vida está nos colocando numa gangorra. A gangorra de muitas infâncias, de várias juventudes e até de outras idades posteriores.

         Porém, ao invés de estarmos na companhia de algum parceiro amistoso, do outro lado da gangorra está um adversário pandêmico.

          Faço essa associação imediata, quando medito sobre a realidade dos dias de hoje, com o que está acontecendo dentro e fora de nós.

         Estamos descendo e subindo conforme o impulso que conseguimos dar para o alto, enquanto do outro lado vem o impacto do vírus que nos coloca para baixo.

         As reações que ocorrem no nosso íntimo oscilam entre o otimismo e o pessimismo, entre o medo e a coragem, entre a derrota e a vitória.

         Cada dia que amanhece e nos desperta sadios é um ganho. E a noite nos espreita em silêncio na incerteza do amanhã.

         A gente quer encontrar o equilíbrio em meio ao caos que balança nossa alma. Tentamos lutar contra a ansiedade, querendo que o tempo avance em direção a conquista da liberdade de ir e vir, incólumes, protegidos, vacinados.

         Ninguém está passando por toda essa catástrofe livre, leve e solto. Estamos todos numa arca, tal qual a de Noé, no dilúvio avassalador de um vírus que se multiplica e se replica, ameaçando o planeta Terra.

         Todas as faixas etárias da humanidade estão no mesmo barco sob o jugo desse algoz que veio desagregar e desestruturar o cotidiano em que estávamos inseridos, sem a ameaça dessa contaminação invisível e mortal.

         Uma guerra silenciosa se desenrola indiscriminadamente.  Inexistem abrigos contra os ataques que chegam através de gotículas nocivas. As proteções de que podemos dispor são quase as mesmas de um século atrás: as máscaras e o distanciamento.

         E me pergunto onde e como evoluiu a civilização.

         E respondo a mim mesma que evoluímos na área das pesquisas dos cientistas que são aptos a elaborar os antídotos para nos proporcionar imunidade e, de igual forma, evoluímos nos estudos da área da medicina que, através de seus dedicados profissionais da saúde, salvam vidas no front do combate com os cuidados que estão ao seu alcance. E, também, evoluímos na área das comunicações e da cibernética, que tornam possíveis o contato visual e auditivo, aproximando distâncias dos nossos afetos, enquanto aguardamos o contato do toque e do abraço desejado do fundo da alma.

         Estamos numa gangorra, sem dúvida.  Altos e baixos.  Incertezas e esperanças. Solidão e companhia. Real e virtual.

         Melhor não esmorecer e muito menos perder a bússola da confiança de que chegaremos ao porto seguro para pisar em terra firme longe do sobe e desce da gangorra de agora.       


 

08 outubro 2018

BONITO


Pelas artes e manhas da vida já morei em várias cidades. Porto Alegre, onde nasci; São Leopoldo, Rio de Janeiro, Rio Bonito, São Lourenço do Sul e, atualmente, Pelotas. Cada etapa vivida nesses lugares construiu minha história.
De todas essas cidades guardo gratas lembranças. Cada etapa trouxe (e, ainda, traz) experiências gratificantes.
De uma maneira muito especial, recordo do tempo em que vivi numa pequena cidade do interior do Rio de Janeiro.
Cheguei forasteira, vinda do Sul do Brasil com meus trejeitos e costumes de gaúcha, falando diferente e, mesmo assim, fui me adaptando e sendo aceita como membro da comunidade com a hospitalidade peculiar de um povo que abre os braços para acolher. Bonito isso. Condizendo com o nome dado ao município: Rio Bonito.
Foi lá que meus filhos cresceram. Onde cursaram o jardim da infância e parte do primeiro grau de ensino.
Foi lá que fui premiada pela primeira vez com um poema, lá ensinei balé e ministrei aulas de ginástica rítmica para mais de 100 alunas, lá encontrei com o movimento do Encontro de casais em Cristo e a Renovação Carismática Católica. Sedimentaram-se sementes que até hoje, vez ou outra, frutificam em mim.
O mais bonito de Rio Bonito não se restringe a Serra que a rodeia, nem a proximidade com a região dos Lagos. O mais bonito é que ali me acolheram como se eu fizesse parte da comunidade, desde sempre.  Aceitaram o meu jeito estrangeiro de ser (pois que, gaúchos se tipificam de forma um tanto peculiar), aceitaram minha espontaneidade, receberam a Maria Alice com sua bagagem de outras vivências com a maior naturalidade possível.
Foi lá, também, que comecei amizades que o tempo e, muito menos, a distância não desfez. Amigos queridos que me acompanham no mais íntimo de minhas recordações. Impossível nominar cada um deles no espaço dessa página.
Juntos, rimos bastante, choramos muito, abraçamos, dançamos, trocamos confidências, partilhamos o pão, as dúvidas, os conselhos, as dores e fomos, sem saber, tecendo uma rede de laços intensos e definitivos. Sem dúvida, permanecemos orando intensamente uns pelos outros em intercessão firme e forte.
Pode ser que muitos não saibam do significado de cada um na minha vida. Talvez eu nunca tenha verbalizado o quanto foi boa tal convivência.  E lágrimas de saudade deslizam pelo meu rosto ao relembrar todos. Saudade grata de um tempo em que fui muito feliz. E as essas amizades devo a alegria de tê-las conhecido e convivido por oito anos, que valem uma vida.
O tempo passou, caminhei por outras estradas e vários horizontes, mas, o contato com meus amigos e amigas, conquistados em Rio Bonito, permanece incólume contra a ação da distância física, graças ao avanço das comunicações via Internet e telefonia celular. Sinais dos tempos a meu favor.
Qualquer dia desses vou voltar.... Sei que ainda vou voltar..., para rever e abraçar a todos que me acompanham no coração no cantinho terno, que irriga as minhas veias com a seiva do bem-querer gratuito, que as artes e manhas de viver me presentearam para adornar lembranças com as pedras preciosas de amizades imperecíveis.

RETICÊNCIAS




           Enquanto caminhava em direção ao meu local de trabalho ouvi uma frase que ficou solta no ar. Dizia alguém com muita ênfase: -A melhor coisa da vida...e, com meu passo apressado não consegui ouvir o resto. O que seria para ele a melhor coisa da vida?
         Caminhei elaborando muitas respostas. Minha mente fora acionada por uma afirmação entrecortada que despertou minha curiosidade, mas não a saciou.
         Provocada que fui, comecei a pensar no desfecho que eu teria dado a respeito do que seria a melhor coisa da vida para a pessoa entusiasmada que iniciou a frase, cujo final deixei de escutar porque não atrasei o passo.
         Como saber o subjetivo de cada um no seu universo íntimo e peculiar? De que forma decifrar o intrincado labirinto dos pensamentos alheios?
         Desisti de imaginar a continuação da frase.
         Por minha completa culpa, quantas e tantas vezes, por precipitação, deixei de escutar. E foi nesse detalhe que me prendi. O detalhe de não ouvir.
         Entre gritos e gemidos palavras são mencionadas, mas só se escuta o volume ou as interjeições.
         Deixo de ouvir o canto dos pássaros nas manhãs porque o burburinho dos meus pensamentos e preocupações abafa o som do belo.
         Atropelo declarações de afeto porque o medo de me emocionar às lágrimas me faz esbarrar numa parede que eu mesma construo para me proteger sei lá do que.
         Tento adivinhar vontades antes que se formulem pedidos e me precipito desencanto abaixo pelas ladeiras escorregadias do outro.
         Ouvir silêncios então, nem se fala. Que difíceis são os complicados silêncios que navegam como naus à deriva nesse cotidiano em que me insiro.
         O que nos é dito nem sempre é o que ouvimos e nem o que dizemos é escutado.
         Existe uma linguagem sublinear embutida em forma de palavras soltas, dúbias, reticentes.
         A linguagem inaudível utiliza máscaras e disfarces que, muitas vezes, não possibilita a tradução em vogais e consoantes do idioma vernáculo. Precisa-se de um tradutor de sorrisos e de lágrimas, que falam uma língua peculiar e múltipla, rica em sinônimos e adjetivos, verbalizando emoções que escapam a nossa capacidade de ouvir e entender.
         O silêncio num templo para meditar, o silêncio ao admirar o amanhecer, o silêncio para mergulhar o olhar na noite coberta de estrelas, são silêncios que me encantam porque conversam comigo em diálogos plenos de ternura e de cumplicidade.
         Mas os silêncios reticentes que me forçam a interpretação, confesso que me levam as raias da impaciência.
         Tais silêncios voam na atmosfera como aves andarilhas e cheias de segredos impenetráveis. Misterioso é o reino do silêncio. Vago e etéreo. Impalpável.
          E assim sendo, me rendo, sob protesto, ao inevitável uso da percepção sensitiva, da elucubração de conjecturas, da perspicácia falível para tentar ouvir silenciosas frases que me são ditas nas caminhadas do dia a dia.
         Aprecio sobremaneira o que me é dito em alto e bom som com todas as sílabas e pontuações.  Detesto reticências.  Não sei ouvi-las.

EXÍLIOS



           Descobriu-se silenciosa.   Coisa que fugia a normalidade porque os ruídos sempre estavam agregados a sua figura extrovertida.  Alguma coisa de diferente estava ocorrendo no lado de dentro.  Talvez, um defeito no sistema de sons ou, uma acomodação nas camadas internas.
          Quando a alma se exila do corpo e fica silente e fala pouco, anuncia, sem alarde, que está amadurecendo.
          De qualquer forma, a sensação de serenidade e de paz era, sem dúvida, alarmante.
          Amadurecer é fantástico, mas traz junto uma espécie de medo de ser.  De ser perspicaz e de agir com equilíbrio condizente com o percebido.
          Crescer é natural.   Amadurecer requer anos de prática.  Amadurecer é deixar de lado as desnecessárias preocupações e valorizar a inevitável realidade.   Adequar-se ao todo, amplo, geral e irrestrito, é característica primordial de quem amadurece.
          A idade não importa.  O processo se desencadeia independentemente de faixas etárias.  Existem milhares de moços velhos e velhos moços.
          Amadurecer é tornar-se coerente com o que se é e o que se tem.
          E, de repente, o que se tem é o exílio. Uma saída estratégica e necessária para reabastecer energias, assimilar descobertas, repensar a vida.
          Assim estava ela.  Sentindo-se exilada de si mesma, num lugar distante, vendo-se de longe, observando-se com a ajuda de lentes especiais.
          Afastada de suas limitações corpóreas, sua silhueta era mais visível.  Capaz de vislumbrar sua própria imagem no distanciamento de si mesma, alcançava o alto da montanha na sua ilha deserta.
          Ali, as respostas estavam à espera e, uma a uma, se revelavam com a precisão de um relógio suíço.
          O silêncio se justificava.  Quando a verdade surge, tudo o mais perde o sentido.
          Daqui em diante, as palavras começarão a aparecer vestidas de sabedoria e sairão à rua com passo calmo e temperado.
          A causa é desconhecida.  Talvez, a subida na montanha do exílio.   Quem sabe, a chegada do discernimento e do bom senso.
          Readquiriu o direito à cidadania no território de si mesma e reassumiu a posição na estrutura de sua vida.
          Ela sabe que o estágio é fértil, assim como o de uma árvore madura que abriga com sua sombra e perfuma com suas flores.
          O exílio serviu como adubo e, agora, é só colher os frutos.
          Vez ou outra, ela voltará à montanha porque novas verdades podem estar surgindo e é imprescindível conhecê-las.
          Pensando bem, exílios são comuns e rotineiros.  Às vezes, o que acontece é o desconhecimento do que significam em sua essência.
          Ao contrário do exílio da pátria, o exílio de nós próprios é voluntário e muitas vezes, mais do que oportuno e necessário. 


12 junho 2016

DO NAMORO

DO NAMORO
Maria Alice Estrella


         Namoro é sentimento sendo alinhavado pelas bordas e bandas do coração. É um momento que exige cuidados e atenção de quem conduz a agulha e que une, com linha invisível, dois personagens distintos e, ao mesmo tempo, tão similares. 
         E, trata-se de alinhavo, pois é descoberta, é estabelecimento de limites e fronteiras, é ocupação de território conquistado.
         Enamorado é aquele que entra de pés descalços, porta adentro da alma; olha intensamente e, sem pressa, pelo lado avesso; segura a emoção com as mãos firmes do amor espalha pétalas de ternura por onde passa e convive, cuidadosamente, com os espinhos inevitáveis.

20 outubro 2013

MULHER GUERREIRA


            Conheço algumas. Mulheres que não fogem à luta e encaram a vida no seu cotidiano com a cara e a coragem.
         Mulher guerreira nasce com marca registrada em qualquer tempo ou lugar, sem previsão ou planejamento, pouco importando sua origem ou condições de vida. E, apesar disso, paga um elevado preço por ser diferencial.
         Mulher guerreira olha nos olhos, estabelece territórios, conquista espaço. Ela não se faz de paisagem, responde quando lhe interrogam, participa e partilha com toda sua essência e detesta o silêncio furtivo. 
        Mulher guerreira incomoda, desacomoda, desmascara. Mulher guerreira desassossega o "talvez", afirma o "sim", garante o "não".  Ela não usa meio-termo, meias palavras. Busca o ilimitado da alma em cada gesto ou palavra no seu convívio com os demais.
         No mais das vezes, a mulher guerreira é solitária e, assim, caminha através de campos minados, de rios caudalosos, de íngremes cordilheiras, de áridos desertos.
         Mulher guerreira é emoção desfeita em lágrimas, é grito estrangulado na garganta, é feita de carne e osso, forjada em aço resistente as intempéries.
         Mulher guerreira colhe flores, planta árvores, gera filhos, semeia vento e enfrenta tempestades. Desperta o melhor e o pior de cada um e convive com o bem e o mal, cultivando um e extirpando o outro.

14 outubro 2013

TRIBUTO ÀS CRIANÇAS

    
         Ser criança é estar de mãos dadas com a vida na melhor das intenções. É acreditar no momento presente com tudo o que oferece, é aceitar o novo e desejar o máximo.
      Ser criança é estar em constante estágio de aprendizado, é querer buscar e descobrir verdades sem a armadura da dúvida.
         Ser criança é ter um riso franco esparramado pelo rosto, mesmo em dia de chuva, é adorar deitar na grama, ver figuras nas nuvens e criar histórias. 
         Ser criança é colar o nariz na vidraça e espiar o dia lá fora.  É gostar de casquinha de sorvete, de bolo de chocolate, de passar a ponta do dedo no merengue recém batido.      
         Ser criança é acreditar, esperar, confiar.  E é ter coragem de não ter medo.
         Ser criança é saber embrulhar desapontamentos e abrir caixinhas de surpresas.
        Ser criança é ter sempre uma pergunta na ponta da língua e querer muito todas as respostas.

06 outubro 2013

RESTAURAÇÃO


     Na manhã silenciosa do domingo, quando o movimento se restringe a alguns poucos carros e quase nenhum transeunte, aproveito o dia de sol escancarado para dar uma caminhada.
        O trajeto escolhido é diferente do usual.  Quero levar meus olhos para apreciarem o contorno da praça principal com seus prédios que contam histórias. Incluo nesse passeio o casario antigo e majestoso das ruas centrais.
         Tenho a impressão que a cidade está vazia e sou uma solitária figura a percorrer calçadas como se fossem ante-salas de um imenso palácio com longos corredores.  Ouço o som dos meus passos nitidamente e imagino um tempo com outros sons. Os ruídos de antigamente quando esses solares eram “novinhos em folha”.
         Incrível a sensação que me invade.  Saudade.  Saudade de uma época que não vivi, mas que conheço pela imagem que esses sóbrios casarões imprimem na retina da alma. E, de certa maneira, nessa caminhada, executo a prática de restaurar o meu patrimônio interior.
         Descerro os véus do tempo e revejo muitas casas restauradas, pintadas com cores harmoniosas, janelas e portas enfileiradas como um cortejo a minha passagem. Elas parecem respirar como se tivessem poros em suas paredes. 
         E um poema surge, lentamente, para acompanhar meus passos:
        A casa antiga fechada/ tem vida/ de muitas vidas/ como se fosse/ uma arca/ onde guardados ficaram/ todos os sonhos das almas/ que por elas já passaram./ A casa antiga calada/ carrega todo o segredo/ do tempo que já se foi./ A casa antiga fiel/ conserva paredes eretas/ com muitos nomes gravados/ de tudo que ali foi vivido.
         Outros tantos casarões estão em preparativos para serem recuperados e ansiosos aguardam suas novas roupagens. Seus músculos, ossos, veias e artérias serão recompostos com esmero para resguardar o passado e preservar o futuro.
        E a visão de todo esse entorno traz uma satisfação interna que externo num sorriso.  Sinto orgulho dos que se empenharam para que essa façanha acontecesse: a recuperação dos prédios históricos de Pelotas.  A cidade que escolhi para viver e que aprendi a amar.
         Imagino o esforço, a tenacidade, a competência e o extraordinário empenho de cada um dos envolvidos nessa tarefa.  Parabenizo a todos.
         Preservar o patrimônio histórico é restaurar a cultura e projetá-la para o futuro.
         Depois de muito andar, retorno à praça e, numa reverência, abrigo o meu cansaço debaixo de um velho jacarandá, sorvendo uma brisa suave que percorre o contorno das alamedas.  O sol projeta seus raios sobre as esculturas do chafariz e um brilho distinto reflete a beleza.
         Ofuscado, meu olhar se volta para o precioso teatro, que está sendo restaurado e, num toque de mágica, seu contorno na calçada afivela minhas emoções e conduz minha imaginação através de suas portas.  E consigo ouvir aplausos vibrantes a ecoar pelas inúmeras plateias que sorveram a arte que, no seu palco, deixou vestígios no melhor de todas as memórias.
         Fotografo na alma esse instante e tenho a nítida certeza de que não estive tão sozinha quanto pensei.  A história me acompanhou.


Maria Alice Estrella

30 setembro 2013

INFRINGENTES



        Seria ideal que toda e qualquer situação ficasse restrita aos seus limites peculiares, imune aos predadores e que o toque pessoal fosse sempre um toque de classe dentro do permissível.
       No entanto, é mais comum do que se espera, a ocorrência de invasões inconvenientes, minando e contaminando o que, supostamente, deveria acontecer em plena harmonia e coerência. Uma extensa lista de contravenções se estende e se alastra por entre as relações de convívio e são cometidas numa pueril displicência sem a medida das prováveis consequências.
       Acessos de infringentes sensações e de corruptas posturas abalam e violam momentos significativos do afeto que deixa, subitamente, de ser especial.
     As transgressões afetivas são, frequentemente, causadas por equivocados pontos de vista no desconhecimento da força da Lei da Gravidade.  Simples dedução que me ocorre, por constatar que muitos se iludem ao pressupor que o centro gravitacional do planeta Terra é seu próprio umbigo e que tudo mais gira ao seu redor como meros satélites na órbita da circunscrição em que vivem.

22 setembro 2013

ROLDANA DO TEMPO



         Sem fazer alusão ao que passou, porque a vida caminha para frente, pincelamos o amanhã despretensiosamente, mesmo sabendo que o pincel e as variantes de cores são fornecidos pelo momento presente. O aqui e agora são nada mais do que alavancas e alicerces.
         A desacomodação do já estabelecido como regra de viver é um processo que exige disposição para renovar, para sair da estagnação do sempre igual. 
          A rotina é uma alternativa cômoda a que nos adaptamos a fim de evitar o desconforto do imprevisto, daquilo que está do lado de fora das nossas confortáveis quatro paredes. Tentamos reter o tempo nas mãos como colecionadores de antiguidades.
          E a percepção de que ficamos mobilizados assusta tanto quanto um quarto escuro desconhecido.  Portanto, daí vem a necessidade de deslocarmos nossos sentidos rumo ao futuro.   Precisamos sair para além dos muros que nos cerceiam. As paredes estão dentro de nós. Mas existe uma porta a escancarar.  Uma porta que permite a alternativa de esticar os horizontes para mais longe, onde a vista não alcança, onde os laços não prendem, onde o incógnito se revela.

01 setembro 2013

CICATRIZES


          Tenho incontida admiração, com conhecimento de causa, pelas marcas que ficam impressas nos olhos de quem sofreu e chorou intensamente. Gente que foi mutilada na alma e perdeu pedaços, teve amputados os braços dos sonhos e as pernas da alegria. Gente de quem sou cúmplice.
         Consigo reconhecer na multidão a face marcada e identifico o olhar que passa rápido por mim, deixando a nítida impressão de que se sabe portador da mesma convalescença de machucaduras.
         Volto à cabeça na direção desse olhar fugaz. Impossível chamá-lo porque desconheço seu nome. Só sei o seu olhar.
         Vez ou outra, consigo ficar frente a frente, em meio ao burburinho dos passantes, com um olhar lancetado e, instantaneamente, se estabelece um reconhecimento mútuo.

25 agosto 2013

A OUTRA


          Atravessei a rua e a calçada, que me esperava do outro lado, tinha um ar de calçada da minha infância. As árvores perfiladas exibiam ramos viçosos entremeando a alameda com sombras e luzes.
          Comecei a conversar comigo mesma, ou com a outra que me ouve, me interroga, me responde desde sempre. Aquela que me acompanha como testemunha parceira do que sinto.
         Falei das árvores, do formato das casas, da quietude das janelas ainda fechadas. Comentei sobre os possíveis segredos das muitas histórias que cada porta guardava e segui, absorvendo do cenário todo detalhe que não escapava ao meu olhar e a minha imaginação.
          Conversei, conversei muito.  E não estava “falando sozinha”.  Estava trocando idéias e impressões com alguém dentro de mim.  Um alguém que faz parte da minha história desde muito longe.   Um alguém que discorda, argumenta, silencia, que consola, que acompanha.  É isso! Um alguém que é cúmplice.

10 agosto 2013

SEMELHANÇAS


       Cruzaram por mim num sinal fechado, apressados. Chamaram tanto a minha atenção que me virei para observá-los melhor. Eram, sem dúvida, pai e filha, pela semelhança entre os dois.  Semelhança, mas não a de traços fisionômicos. Havia uma parecença que os identificava. Alguma coisa para além, mais sutil, mais similar do que os olhos, boca ou nariz.
         E, ao percebê-los assim, partilhando de uma caminhada tão cúmplice, me vi voltando no tempo e relembrando das vezes em que fiz o mesmo na companhia do meu pai.
         Aliás, dizem que me pareço muito com ele, talvez por essa mesma impressão que me causaram os transeuntes, essa semelhança que ultrapassa o visível.
         O que nos torna semelhantes aos nossos ascendentes e descendentes são os trejeitos, o modo de olhar, as expressões faciais. Aquela identidade que paira no ar, nos gestos e através deles. A semelhança do amor, pelo amor, para o amor.
         Perdi meu pai num trágico acidente, mas não me perdi de mim mesma, apesar de mergulhada num mar de saudade.  Graças a tudo que aprendi com esse grande personagem (os que o conheceram sabem quão extraordinário ele era), fui capaz de transmitir aos meus filhos o pleno sentido da paternidade.

04 agosto 2013

DO SONHO



         Alguém o imaginou e o Sonho criou vida.  Cheio de vigor e alvoroço se instalou de malas e pacotes na morada de quem o idealizou, louco de vontade de acontecer. 
          Mas o tempo foi passando e o Sonho ficou vagando pela casa, esperando que o tornassem real e palpável.  No entanto, só se lembravam dele, vez ou outra, quando era utilizado nas noites frias em que seu criador precisava de companhia para sua insônia.
          O Sonho sentia-se como um chapéu velho, abandonado, de pouco uso.  Pobre Sonho!
          De resto, conhecia bem as prateleiras empoeiradas do armário antigo, onde vivia escondido por entre livros fechados e silenciosos.  E as fotografias dispersas, plasmadas em porta-retratos emudecidos com sorrisos estáticos e distantes, pareciam um cortejo de tristeza ao seu redor. Um tédio lento e gradual foi se apossando do Sonho.
          No cinzento do cotidiano, aquele que o concebeu não o encontrava porque não conseguia enxergar com a alma a presença constante e fiel do que ele próprio criara na sua juventude.
          O Sonho estava sendo esquecido.  E, afinal, ele era um Sonho especial que precisava ser sonhado.

02 agosto 2013

DE SEMEADURAS E COLHEITAS

           Das missões que me são confiadas ao longo da existência, umas fáceis, outras nem tanto, nunca me descuido do plantio. Faço isso desde menina. Talvez, por ter sido plantada em mim a noção exacerbada do significado de responsabilidade.   Permaneço atenta e fiel ao curso das tarefas que me dizem respeito e, por hábito, infelizmente, acabo por extrapolar para as que fogem a minha alçada de prestar contas.
         No que me diz respeito, continuo cumprindo a missão maior: a de ser mãe.  E, segundo a assertiva: "pelos frutos se conhece a árvore", me regozijo com a colheita nos meus filhos, personagens admiráveis.  Cumpro com meu papel de geradora, protetora, mestra, educadora, amiga, parceira, enfermeira, consoladora, incentivadora, orientadora.  Às vezes, exigindo demais, pecando por excesso, porém, nunca, nem pensar na hipótese, por omissão, por falta, por descuido. 
         Da minha semeadura colho bênçãos de orgulho, de suprema felicidade que meus frutos me proporcionam a cada momento. 
         Sigo cuidando da minha casa de provisões, silenciosamente, como quem pisa leve na alma do bem querer. Essa missão nunca termina. Nem o fim dos dias será capaz de extingui-la porque as gerações me sucedem e nelas existirá sempre o reflexo da minha semeadura.

24 junho 2013

GOTA D'ÁGUA


         Sempre surge a gota d’água que desencadeia o transbordar da nossa reserva de tolerância.  Uma mínima porção de água, um pequeno imprevisto tem a força de um batalhão.   Um simples detalhe faz entornar o caldo.        Gotas e mais gotas vão enchendo o nosso reservatório, mas uma só delas faz a diferença.  A última gota. Ela chega com todo o poder de desencadear uma guerra no que antes parecia significativamente pacífico.
         Tantas vezes explodimos, ao longo da existência, como verdadeiras bombas acionadas por um mero e corriqueiro detalhe.  Então, viramos a mesa, viramos o barco, puxamos o tapete, quebramos os pratos, soltamos o verbo.          
         Um toque de “fim da linha”, um categórico “acabou”!  E a partir daí “sai da frente!” Foi a gota d’água. Transbordou o copo e tudo o mais deixa de ser obstáculo.  É o término.  O fim.  A solução de continuidade.
        Uma gotinha resolve o que jazia inerte e silencioso e faz vir à tona o que foi sendo armazenado lentamente numa aquisição diurna e noturna de desconfortos.

16 junho 2013

ALMA AREJADA


        Está tudo muito bom, está tudo muito bem mas "ser feliz é tudo o que se quer", como diz a canção do Kleiton e do Kledir.
        Vou mais longe. O que se quer é arejar a alma, abrir portas e janelas para deixar que o vento da emoção prorrompa campo adentro e espaço afora, provocando em nós antigas sensações de uma estréia que se renove e se repita e nos faça suspirar, estremecer, e transbordar para além de nossos limites corpóreos.
         Existe, atualmente, uma escassez de envolvimento nas relações de amor. Carência de envolvimento emocional que nos torne comprometidos com o outro, sem trava de segurança, sem medo de ser feliz, tenhamos 20, 35 ou 60 anos. A idade da emoção no sentimento é atemporal.  E é surpreendente constatar que, em quase todas as idades, os protagonistas de uma convivência de amor extirpam a emoção do relacionamento como se ela fosse perfeitamente descartável ou, até mesmo, um entrave, um impedimento inconveniente.
         E da aridez do terreno da alma brotam espinhos que maltratam e retratam o ocaso do sentimento. Tenho constatado tantos ocasos que qualquer alvorecer me extasia.  Aliás, é mais comum testemunhar o entardecer do que a alvorada de um relacionamento.

09 junho 2013

SILÊNCIO



Muitas vezes é imprescindível fazer silêncio na alma. Ficar a sós sem palavras. Extremamente benéfico emudecer a voz para ouvir os pensamentos, sem verbalizá-los.
No entanto, no convívio com os demais, o silêncio se transfigura. Dá margem a muitas elucubrações.
 Esse silêncio traz uma mensagem inaudível, mas nem por isso deixa de ser escutado.  Fala de mundos inatingíveis, de portas trancadas, de segredos guardados.  Indecifrável. E, como é misterioso em seus labirintos, assusta pelo espaço desconhecido que se abre quando ele surge.
          Desagradável ficar na platéia, assistindo ao desenrolar mudo dos pensamentos que se confinam a olhares vagos e distantes na coxia, nos entremeios.  Mas a falta de palavras diz o que a alma sente.  E deve ser respeitado esse mecanismo onde fantasmas confabulam.
          Que importa se os sentidos buscam retorno.  De que vale estender os nervos em todas as direções para abraçar o estático vazio que ronda a presença de imagens alheias, vindas nem se sabe bem de onde.
          O silêncio, vez ou outra, é claro.  Grita nomes, se esquiva, tenta inutilmente camuflar sensações antigas, remexe em cinzas, consente, fica assustado prendendo a voz. E o não saber o que fazer frente ao momento protagonizado, deixa uma perplexidade, pairando no ar.  Esses estreitos corredores que prendem as emoções, involuntariamente, a laços indeléveis e fortes.