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10 agosto 2013

SEMELHANÇAS


       Cruzaram por mim num sinal fechado, apressados. Chamaram tanto a minha atenção que me virei para observá-los melhor. Eram, sem dúvida, pai e filha, pela semelhança entre os dois.  Semelhança, mas não a de traços fisionômicos. Havia uma parecença que os identificava. Alguma coisa para além, mais sutil, mais similar do que os olhos, boca ou nariz.
         E, ao percebê-los assim, partilhando de uma caminhada tão cúmplice, me vi voltando no tempo e relembrando das vezes em que fiz o mesmo na companhia do meu pai.
         Aliás, dizem que me pareço muito com ele, talvez por essa mesma impressão que me causaram os transeuntes, essa semelhança que ultrapassa o visível.
         O que nos torna semelhantes aos nossos ascendentes e descendentes são os trejeitos, o modo de olhar, as expressões faciais. Aquela identidade que paira no ar, nos gestos e através deles. A semelhança do amor, pelo amor, para o amor.
         Perdi meu pai num trágico acidente, mas não me perdi de mim mesma, apesar de mergulhada num mar de saudade.  Graças a tudo que aprendi com esse grande personagem (os que o conheceram sabem quão extraordinário ele era), fui capaz de transmitir aos meus filhos o pleno sentido da paternidade.

04 agosto 2013

DO SONHO



         Alguém o imaginou e o Sonho criou vida.  Cheio de vigor e alvoroço se instalou de malas e pacotes na morada de quem o idealizou, louco de vontade de acontecer. 
          Mas o tempo foi passando e o Sonho ficou vagando pela casa, esperando que o tornassem real e palpável.  No entanto, só se lembravam dele, vez ou outra, quando era utilizado nas noites frias em que seu criador precisava de companhia para sua insônia.
          O Sonho sentia-se como um chapéu velho, abandonado, de pouco uso.  Pobre Sonho!
          De resto, conhecia bem as prateleiras empoeiradas do armário antigo, onde vivia escondido por entre livros fechados e silenciosos.  E as fotografias dispersas, plasmadas em porta-retratos emudecidos com sorrisos estáticos e distantes, pareciam um cortejo de tristeza ao seu redor. Um tédio lento e gradual foi se apossando do Sonho.
          No cinzento do cotidiano, aquele que o concebeu não o encontrava porque não conseguia enxergar com a alma a presença constante e fiel do que ele próprio criara na sua juventude.
          O Sonho estava sendo esquecido.  E, afinal, ele era um Sonho especial que precisava ser sonhado.

07 janeiro 2013

JOVIALIDADE




Há que envelhecer, mas sem perder a jovialidade!
O passar da vida vai acrescentando aprendizados, experiências. Amolda nosso íntimo como se fosse um oleiro trabalhando no barro.  Aguça nosso ponto de vista, colocando lentes argutas ao nosso alcance. Desfaz encantamentos, refaz planos, vira e revira sentimentos e vivências. Modifica nossa fisionomia, traçando linhas e marcas no rosto, como se fossem mapas de rotas percorridas que desenham paisagens descobertas em meio a dias ensolarados e a noites de tempestades.  E o corpo cede às intempéries também. A energia se desgasta e nos move mais lentamente. Tudo conspira para que o cansaço nos vença e cause desânimo e perda de entusiasmo.
Comecei a observar as pessoas da minha geração em seus comportamentais. Homens e mulheres que paralelamente me acompanham desde muitos anos e que mostram aspectos diversos de ações e reações frente à realidade de seu dia a dia.
Alguns, infelizmente, “perderam o jeito de sorrir que tinham”. Apesar de seus cinquenta e poucos anos de idade, permitiram que o passar do tempo corroesse sua vitalidade com um tipo de ferrugem invisível, mas de igual forma, danosa. A impaciência, a impertinência e a rabugice são mais frequentes do que o desejado.   Esqueceram de reabastecer a alma com o inesgotável combustível da jovialidade. E se transformaram em alvo de uma solidão inconveniente.

17 maio 2012

PARA SEMPRE


        Sou aquela que compreende, lê nas entrelinhas, aceita silêncios, justifica omissões, perdoa deslizes, põe “pano quente”, faz de conta que não dói, segura o choro, esconde problemas, disfarça angústias, finge que está tudo bem.
         Tudo começou quando descobri que gerava em meu ser, um outro ser. Desde então, li tudo o que estava ao meu alcance sobre bebês. Precisava aprender o que eu não sabia, necessitava me valer de ensinamentos, além dos que me eram passados pelos mais experientes.
         De repente, depois de algumas dores e gemidos recebi em meus braços, a dádiva da vida, choramingando entregue aos meus cuidados. E fui abençoada por três momentos desses: tenho três filhos.
         A partir daí, me vi debruçada sobre berços em madrugadas extensas, despertada num passe de mágica pelo sexto sentido, aproveitando ao máximo a ventura de aconchegar no colo aos filhos que Deus me permitiu receber. Não havia mistério, nem cansaço, havia descobertas e alegrias.
        Acalantei gemidos de desconfortos, velei sonos pelo prazer de contemplar a serenidade, visitei pediatras mensalmente, agarrei firme para a aplicação das vacinas, assisti ao primeiro sorriso, segurei as mãozinhas nos primeiros passos, sorri de felicidade na primeira batida de palmas, medi febres, ministrei remédios em joelhos esfolados, consolei desapontamentos, apaziguei disputas, cooperei na alfabetização, ajudei a decorar a tabuada, cobrei bom desempenho nas tarefas do colégio, fui a um sem número de reuniões nas escolas, participei de piqueniques, de gincanas, de festas juninas, de bailes infantis.       Assisti a apresentações teatrais, a invernadas do CTG, a jogos de futebol, a partidas de tênis, a aulas de natação e de judô.  Foi uma grande aventura partilhada passo a passo, mão na mão, coração a coração. Que benção!

14 agosto 2011

MEU PAI


Ele sabia, antes do meu nascimento, que eu seria uma menina. Escolheu meu nome e o escreveu numa dedicatória de livro para a minha mãe. Imaginava exatamente como eu seria: lourinha com olhos verdes. E acertou.

Esse texto vai ser escrito entre lágrimas, interrompido pela emoção de lembranças e sorrisos, de orgulho, de júbilo, de exercício de despir a pele da alma para retratar a figura de um homem especial.

Tive o privilégio de ser filha de um grande homem, malgrado sua estatura física ser mediana. O incomum era o tamanho da alma que aquele corpo conduzia. Afora isso seu rosto era dotado de uma beleza indiscutível. Daquelas que chegam a incomodar por chamarem tanto a atenção na rua, na chuva, no meio do nada, no centro de tudo.

17 julho 2011

ADÁGIO PARA A PRINCESA

Tens a brejeirice de quem sabe ver o tempo passar e consegue manter o mesmo ar de nobreza, mesmo com marcas e cicatrizes. Aliás, como bem escreveu Artur da Távola: “Um rosto sem rugas é um rosto sem biografia”.


E a tua biografia é rica de detalhes, entalhes cinzelados por mãos criativas e invisíveis que foram esculpindo uma trajetória plena de cultura, de sabedoria para proveito de todos os que te conhecem.

Como fértil que és, geraste filhos e filhas que são teu verdadeiro cartão postal. Embaixadores que te representam há 199 anos por todas as paragens do mundo.

E é de teus filhos que desejo falar. Dessa gente especial que descende do teu solo e no teu colo se abriga. Ilustres ou desconhecidos são eles semelhantes a ti na fisionomia da suavidade que só os fortes possuem e sabem usar.

28 junho 2011

Com paixão e compaixão


O nosso idioma, extraordinário e intrincado idioma, apresenta, por vezes, palavras idênticas com sentido diferente.
Ontem, caminhando apressada pelas ruas, comecei a escrever mentalmente o assunto da crônica desse domingo. A palavra que surgiu foi: compaixão.
Ato contínuo, essa que lhes fala, romântica incurável e assumida, separou a palavra compaixão e deu um sorrisinho maroto porque “com paixão” é um tema muito fértil, que proporciona vôos ao espaço amplo das emoções que movem a vida de cada um.